São Jerónimo / P. H. D. Lacordaire, O.P.
Prefácios de Jerónimo / Do Culto de Jesus Cristo nas Escrituras
Índice
OS PREFÁCIOS DE SÃO JERÓNIMO.
I. O PRÓLOGO GALEATO.
Que existem vinte e duas letras entre os Hebreus, atesta-o também a língua dos Sírios e dos Caldeus, a qual é em grande parte aparentada com o Hebraico; pois também eles possuem vinte e dois elementos com o mesmo som, mas caracteres diferentes. Os Samaritanos escrevem igualmente o Pentateuco de Moisés com o mesmo número de letras, diferindo apenas nas figuras e nos traços. E é certo que Esdras, o escriba e doutor da Lei, após a tomada de Jerusalém e a restauração do templo sob Zorobabel, descobriu outras letras que agora usamos, visto que até àquele tempo os caracteres dos Samaritanos e dos Hebreus tinham sido os mesmos. No livro dos Números também se mostra misticamente esta mesma conta sob o recenseamento dos Levitas e dos Sacerdotes. E o nome tetragrammaton do Senhor, em certos códices gregos, encontra-se ainda hoje expresso nas letras antigas. Além disso, os Salmos -- o trigésimo sexto, o centésimo décimo, o centésimo décimo primeiro, o centésimo décimo oitavo e o centésimo quadragésimo quarto -- embora sejam escritos em metros diversos, são todavia tecidos com um alfabeto do mesmo número. E as Lamentações de Jeremias, e a sua Oração, e também os Provérbios de Salomão no fim, a partir do lugar em que diz: «Quem encontrará a mulher forte?» contam-se pelos mesmos alfabetos ou divisões. Ademais, cinco letras entre os Hebreus são duplas: Caph, Mem, Nun, Pe, Sade; pois os princípios e os meios das palavras são escritos de modo diferente por meio destas letras do que os seus fins. Donde também cinco livros são considerados por muitos como duplos: Samuel, Melachim, Dibre hajamim, Esdras, Jeremias com Cinoth, isto é, com as suas Lamentações. Assim como, portanto, há vinte e dois elementos pelos quais escrevemos em Hebraico tudo o que falamos, e a fala humana é compreendida pelas suas formas iniciais, assim se contam vinte e dois livros, pelos quais, como por letras e princípios, a infância ainda tenra e lactente do homem justo é instruída na doutrina de Deus.
O primeiro livro entre eles chama-se Bereshith, que nós chamamos Génesis.
O segundo, Veelle Semoth, que se chama Êxodo.
O terceiro, Vaiicra, isto é, Levítico.
O quarto, Vajedabber, que nós chamamos Números.
O quinto, Elle Haddebarim, que é designado Deuteronómio.
Estes são os cinco livros de Moisés, que propriamente chamam Torá, isto é, a Lei.
A segunda ordem fazem-na dos Profetas, e começam por Josué, filho de Nave, que entre eles se chama Josue ben Nun.
Em seguida juntam Sophetim, isto é, o livro dos Juízes. E no mesmo incluem Rute, porque a sua história é narrada nos dias dos Juízes.
O terceiro segue-se Samuel, que nós chamamos o primeiro e o segundo dos Reis.
O quarto, Melachim, isto é, dos Reis, o qual está contido no terceiro e quarto volume dos Reis.
E é muito melhor dizer Melachim, isto é, dos Reis, do que Mamlachot, isto é, dos Reinos. Pois não descreve os reinos de muitas nações, mas de um só povo israelita, que é composto por doze tribos.
O quinto é Isaías.
O sexto, Jeremias.
O sétimo, Ezequiel.
O oitavo, o livro dos Doze Profetas, que entre eles se chama There Asar.
A terceira ordem possui os Hagiógrafos.
E o primeiro livro começa com Job.
O segundo com David, que compreendem em cinco divisões e num só volume de Salmos.
O terceiro é Salomão, tendo três livros: Provérbios, que eles chamam Misle, isto é, Parábolas.
O quarto, Eclesiastes, isto é, Coheleth.
O quinto, o Cântico dos Cânticos, que designam pelo título Sir Hassirim.
O sexto é Daniel.
O sétimo, Dibre Hajamim, isto é, Palavras dos Dias, que podemos chamar mais expressivamente a Crónica de toda a história divina; este livro está inscrito entre nós como o primeiro e o segundo dos Paralipómenos.
O oitavo, Esdras, que igualmente entre os Gregos e os Latinos está dividido em dois livros.
O nono, Ester.
E assim os livros da antiga lei perfazem igualmente vinte e dois: isto é, cinco de Moisés, oito dos Profetas e nove dos Hagiógrafos. Embora alguns escrevam Rute e Cinoth entre os Hagiógrafos e julguem que estes livros devam ser contados no seu próprio número, e que assim haja vinte e quatro livros da lei antiga -- que, sob o número dos vinte e quatro anciãos, o Apocalipse de João apresenta adorando o Cordeiro e oferecendo as suas coroas com os rostos prostrados, estando de pé diante dos quatro seres viventes, com olhos diante e atrás, isto é, olhando para o passado e para o futuro, e clamando com voz incansável: Santo, santo, santo, Senhor Deus omnipotente, que era, e que é, e que há-de vir.
Este prólogo, como princípio galeato das Escrituras, pode convir a todos os livros que traduzimos do Hebraico para o Latim, de modo que possamos saber que tudo o que está fora disto deve ser colocado entre os apócrifos. Portanto, a Sabedoria que vulgarmente se atribui a Salomão, e o livro de Jesus, filho de Sirac, e Judite, e Tobias, e o Pastor, não estão no cânone. O primeiro livro dos Macabeus, achei-o em hebraico. O segundo é grego, o que se pode provar também pelo seu próprio estilo. Sendo isto assim, peço-te, leitor, que não consideres o meu trabalho uma censura dos antigos. No templo de Deus cada um oferece o que pode: uns oferecem ouro, prata e pedras preciosas; outros oferecem linho fino e púrpura e escarlata e jacinto; connosco vai bem se oferecermos peles e pêlos de cabra. E todavia o Apóstolo julga as nossas partes mais desprezíveis como as mais necessárias. Donde também toda aquela beleza do tabernáculo, e a distinção da Igreja presente e futura através de cada um dos seus elementos, é coberta com peles e cilícios, e aquelas coisas que são mais vis afastam o calor do sol e a injúria das chuvas. Lê, pois, primeiro o meu Samuel e o meu Melachim -- meu, digo, meu. Pois tudo o que aprendemos traduzindo mais frequentemente e retemos emendando com mais cuidado, é nosso. E quando tiveres compreendido o que antes não sabias, ou estima-me como tradutor, se és grato, ou como parafraseador, se és ingrato -- ainda que de modo algum tenha eu consciência de haver mudado algo da verdade hebraica. Certamente, se és incrédulo, lê os códices gregos e os latinos, e compara-os com estas pequenas obras que há pouco emendámos; e onde quer que vires que discordam entre si, pergunta a qualquer Hebreu a quem deves antes dar crédito; e se ele confirmar as nossas, creio que não o terás por mero conjecturador, como se tivesse adivinhado de modo semelhante a mim na mesma passagem. Mas peço-vos também a vós, servas de Cristo (que ungis a cabeça do Senhor reclinado à mesa com a mirra preciosíssima da fé, que de modo algum buscais o Salvador no sepulcro, para quem Cristo já subiu ao Pai), que contra os cães ladradores que se enfurecem contra mim com boca raivosa e percorrem a cidade, e se julgam doutos nisso, se difamam os outros -- oponde contra eles os escudos das vossas orações. Eu, conhecendo a minha humildade, recordar-me-ei sempre daquela sentença: Eu disse: Guardarei os meus caminhos, para não pecar com a minha língua. Pus uma guarda à minha boca, quando o pecador se levantava contra mim. Emudeci e humilhei-me, e calei-me até do bem.
II. JERÓNIMO A PAULINO.
O irmão Ambrósio, trazendo-me os teus pequenos presentes, entregou ao mesmo tempo uma carta muito agradável, que desde o início da nossa amizade exibia a fidelidade de uma fé já provada e de uma antiga amizade. Pois verdadeira é aquela ligação, unida pela cola de Cristo, que nem a vantagem dos bens familiares, nem a mera presença dos corpos, nem a lisonja ardilosa e aduladora, mas o temor de Deus e o estudo das divinas Escrituras suscitam. Lemos nas histórias antigas que certos homens percorreram províncias, visitaram novos povos e atravessaram mares, a fim de verem pessoalmente aqueles que haviam conhecido pelos livros. Assim Pitágoras visitou os profetas de Mênfis; assim Platão percorreu laboriosamente o Egipto, e foi a Arquitas de Tarento, e àquela costa de Itália que outrora se chamava Magna Grécia — para que ele, que era mestre em Atenas, e poderoso, e cuja doutrina ressoava nos ginásios da Academia, se tornasse peregrino e discípulo, preferindo aprender modestamente dos outros a impor as suas próprias ideias de modo impudente. Finalmente, enquanto perseguia as letras como se estas fugissem por todo o mundo, foi capturado por piratas e vendido, e obedeceu até a um tirano crudelíssimo, cativo, acorrentado e escravo; contudo, porque era filósofo, foi maior do que aquele que o comprou. Lemos que certos nobres vieram dos confins mais remotos da Hispânia e da Gália até Tito Lívio, que manava com a fonte láctea da eloquência; e aqueles que Roma não atraíra para a contemplação de si mesma, a fama de um só homem ali os conduziu. Aquela época teve um prodígio inaudito e memorável em todos os séculos: que homens, ao entrarem numa cidade tão grande, buscassem algo fora da cidade. Apolónio, quer fosse mago, como diz o vulgo, quer filósofo, como sustentam os pitagóricos, entrou na Pérsia, atravessou o Cáucaso, passou pelos Albanos, Citas e Massagetas, penetrou nos reinos mais opulentos da Índia; e finalmente, tendo atravessado o vastíssimo rio Físon, chegou aos Brâmanes, para ouvir Hiarcas sentado num trono de ouro e bebendo da fonte de Tântalo, ensinando entre poucos discípulos sobre a natureza, sobre os movimentos dos astros e o curso dos dias. Daí, pelos Elamitas, Babilónios, Caldeus, Medos, Assírios, Partos, Sírios, Fenícios, Árabes e Palestinos, tendo regressado a Alexandria, prosseguiu até à Etiópia, para ver os gimnosofistas e a famosíssima Mesa do Sol na areia. Aquele homem encontrou por toda a parte algo que aprender, e, sempre progredindo, sempre se tornava melhor do que ele próprio. Filóstrato escreveu sobre isto muito amplamente em oito volumes. Porque hei-de falar de homens do mundo, quando o apóstolo Paulo, vaso de eleição e mestre das gentes, que falava pela consciência de tão grande hóspede dentro de si — «Porventura buscais prova daquele que fala em mim, Cristo?» — depois de visitar Damasco e a Arábia, subiu a Jerusalém para ver Pedro e permaneceu com ele quinze dias? Pois por este mistério da semana e da oitava, o futuro pregador das gentes devia ser instruído. E novamente, depois de catorze anos, tendo tomado consigo Barnabé e Tito, expôs o Evangelho aos Apóstolos, para que porventura não corresse ou não tivesse corrido em vão. Pois a voz viva tem um certo poder oculto, e, derramada da boca do autor nos ouvidos do discípulo, soa com maior força. Donde também Ésquines, estando exilado em Rodes, quando se lia aquele discurso de Demóstenes que este proferira contra ele, enquanto todos se admiravam e o elogiavam, suspirou e disse: «Que seria se tivésseis ouvido a própria besta a pronunciar as suas próprias palavras?» Não digo estas coisas porque haja em mim algo de tal natureza que possas desejar ouvir de mim ou querer aprender, mas porque o teu ardor e o teu zelo de aprender devem ser aprovados por si mesmos, mesmo sem nós. Um espírito dócil é louvável mesmo sem mestre. Não consideramos o que encontras, mas o que buscas. A cera mole, fácil de moldar, mesmo que as mãos do artífice e do escultor estejam ociosas, é contudo, pela sua virtude, tudo aquilo que pode ser. O apóstolo Paulo gloria-se de ter aprendido a lei de Moisés e os Profetas aos pés de Gamaliel, para que, armado com armas espirituais, pudesse depois dizer com confiança: «As armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas diante de Deus para destruição de fortalezas, destruindo conselhos e toda a altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativando todo o entendimento para a obediência de Cristo, e prontos para submeter toda a desobediência.» Escreve a Timóteo, instruído desde a infância nas sagradas letras, e exorta-o ao estudo da leitura, para que não negligencie a graça que lhe foi dada pela imposição das mãos do presbitério. A Tito ordena que, entre as demais virtudes do bispo, as quais descreveu num breve discurso, escolha nele também o conhecimento das Escrituras: «Retendo, diz, a palavra fiel que é conforme à doutrina, para que seja capaz de exortar na sã doutrina e de refutar os que contradizem.» Pois, na verdade, a santa rusticidade só a si mesma aproveita: e tanto quanto edifica a Igreja de Cristo pelo mérito da sua vida, tanto prejudica se não resiste aos que a querem destruir. O profeta Malaquias, ou antes o Senhor por Ageu, diz: «Pergunta aos sacerdotes a lei.» Tão grande é o ofício do sacerdote: responder quando interrogado sobre a lei. E no Deuteronómio lemos: «Pergunta ao teu pai e ele te ensinará; aos teus anciãos, e eles te dirão.» No salmo cento e dezoito também: «Os teus estatutos eram o meu cântico no lugar da minha peregrinação.» E na descrição do homem justo, quando David o comparou à árvore da vida que está no paraíso, entre as demais virtudes acrescentou isto: «A sua vontade está na lei do Senhor, e na sua lei meditará dia e noite.» Daniel, no fim da sacratíssima visão, diz que os justos resplandecerão como estrelas, e os inteligentes, isto é, os doutos, como o firmamento. Vês quanta diferença existe entre a justa rusticidade e a justiça douta? Uns são comparados às estrelas, outros ao céu. Embora, segundo a verdade hebraica, ambas as coisas possam ser entendidas dos doutos. Pois assim lemos entre eles: «Mas os que forem doutos resplandecerão como o esplendor do firmamento; e os que instruírem muitos na justiça, como estrelas por perpétuas eternidades.» Porque é o apóstolo Paulo chamado vaso de eleição? Certamente porque era um arsenal da lei e das santas Escrituras. Os Fariseus ficam assombrados com a doutrina do Senhor; e admiram-se de Pedro e João, de como conhecem a lei sem terem aprendido letras. Pois o que quer que o exercício e a meditação quotidiana na lei costumam conferir aos outros, o Espírito Santo lhes sugeria, e eles eram, conforme o que está escrito, ensinados por Deus. O Salvador completara doze anos, e, interrogando os anciãos no templo sobre questões da lei, mais ensina ao perguntar sabiamente. A não ser que chamemos Pedro rústico, João rústico — qualquer dos quais poderia dizer: «Ainda que imperito na palavra, contudo não no conhecimento.» João rústico, pescador, indouto? E donde, pergunto, aquela sentença: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus»? Pois o Verbo (Logos) em grego significa muitas coisas: é palavra, e razão, e cômputo, e causa de cada coisa pela qual subsistem todas as coisas que existem — tudo o que rectamente entendemos em Cristo. Isto o douto Platão não soube; isto o eloquente Demóstenes ignorou. «Destruirei, diz, a sabedoria dos sábios, e a prudência dos prudentes rejeitarei.» A verdadeira sabedoria destruirá a falsa sabedoria; e embora exista a loucura da pregação da cruz, todavia Paulo fala sabedoria entre os perfeitos — sabedoria, porém, não deste século, nem dos príncipes deste século, que está sendo destruída; mas fala a sabedoria de Deus escondida no mistério, que Deus predestinou antes dos séculos. A sabedoria de Deus é Cristo; pois Cristo é a virtude de Deus e a sabedoria de Deus. Esta sabedoria está escondida no mistério, sobre o qual se inscreve o título do nono salmo, «Pelos segredos do Filho,» no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus. E aquele que estava escondido no mistério foi predestinado antes dos séculos; mas predestinado e prefigurado na Lei e nos Profetas. Donde os Profetas são também chamados videntes, porque viam aquele que os demais não viam. Abraão viu o seu dia e alegrou-se. Os céus foram abertos a Ezequiel, os quais estavam fechados para o povo pecador. «Descobre, diz David, os meus olhos, e contemplarei as maravilhas da tua lei.» Pois a lei é espiritual, e é necessária revelação para que seja entendida, e com o rosto desvelado contemplamos a glória de Deus. Um livro selado com sete selos é mostrado no Apocalipse; o qual, se o deres a um homem que conhece letras para que o leia, responder-te-á: Não posso, pois está selado. Quantos hoje pensam que conhecem as letras, seguram o livro selado e não o podem abrir, a não ser que o abra aquele que tem a chave de David, que abre e ninguém fecha, que fecha e ninguém abre! Nos Actos dos Apóstolos, o santo Eunuco — ou antes homem (pois assim a Escritura o denomina) — quando lia o profeta Isaías, perguntado por Filipe: «Julgas porventura que entendes o que lês? respondeu: Como posso, se alguém não me ensinar?» Eu (para falar de mim por um momento) não sou nem mais santo do que este eunuco, nem mais estudioso — que veio da Etiópia, isto é, dos confins mais remotos do mundo, ao templo, deixou a corte régia, e foi tão grande amante da lei e da ciência divina que lia as sagradas letras até no seu carro. E contudo, embora segurasse o livro, e concebesse no pensamento as palavras do Senhor, as revolvesse na língua e as pronunciasse nos lábios, não conhecia aquele que sem o saber adorava no livro. Veio Filipe e mostrou-lhe Jesus, que jazia oculto, encerrado na letra. Ó admirável poder do mestre! Na mesma hora o eunuco crê, é baptizado, torna-se fiel e santo; e o mestre encontrou mais no discípulo, mais na fonte deserta da Igreja do que no dourado templo da sinagoga. Estas coisas foram brevemente tocadas por mim (pois a estreiteza de uma carta não me permitia divagar mais), para que entendas que não podes entrar nas sagradas Escrituras sem um guia que te mostre o caminho. Nada digo dos gramáticos, retóricos, filósofos, geómetras, dialécticos, músicos, astrónomos, astrólogos e médicos, cuja ciência é utilíssima aos mortais e se divide em três partes: teoria, método e prática. Venho às artes menores, que são administradas não tanto pela língua quanto pela mão. Agricultores, pedreiros, ferreiros, lenhadores, bem como trabalhadores de lã e pisoeiros e os restantes que fabricam variados utensílios e obras humildes — sem mestre não podem ser aquilo que desejam ser. O que pertence aos médicos, os médicos prometem; os artífices tratam da obra dos artífices. Só a arte das Escrituras é aquela que todos em toda a parte reivindicam para si. Escrevemos poemas, doutos e indoutos, sem distinção. Disto se presume a velha tagarela, disto o velho decrépito, disto o sofista verboso, disto todos se arrogam, dilaceram e ensinam antes de aprender. Outros, com o sobrolho levantado, pesando palavras grandiosas, filosofam sobre as sagradas letras entre mulherzinhas. Outros aprendem (ó vergonha!) das mulheres o que hão-de ensinar aos homens; e como se isto não bastasse, com uma certa facilidade de palavras — ou antes, audácia — expõem aos outros aquilo que eles próprios não entendem. Nada digo daqueles como eu, que, se porventura chegaram às santas Escrituras depois das letras seculares, e encantaram os ouvidos do povo com discurso polido, pensam que tudo o que disseram é a lei de Deus; nem se dignam saber o que os Profetas, o que os Apóstolos quiseram dizer, mas adaptam testemunhos incongruentes ao seu próprio sentido — como se fosse coisa grande, e não o mais vicioso género de ensino, corromper as sentenças e arrastar para a própria vontade uma Escritura que resiste. Como se não tivéssemos lido os Homerocentões e o Virgiliocentão, e como se não pudéssemos assim também chamar Virgílio cristão sem Cristo, porque escreveu:
«Já regressa a Virgem, regressam os reinos de Saturno;
Já uma nova progénie é enviada do alto céu.»
E o Pai falando ao Filho:
«Filho meu, minha força, minha grande potência, tu só.»
E depois das palavras do Salvador na cruz:
«Tais coisas repetia, e permanecia fixo.»
São coisas pueris, semelhantes aos jogos de charlatães — ensinar o que não se sabe; ou antes, falando com indignação, nem sequer saber que não se sabe.
É presumivelmente claríssimo o Génesis, no qual a criação do mundo, a origem do género humano, a divisão da terra, a confusão das línguas e das gentes se narra até à saída dos Hebreus.
Patente está o Êxodo com as suas dez pragas, o seu Decálogo, os seus preceitos místicos e divinos.
Pronto está o livro do Levítico, no qual os sacrifícios individuais, ou antes quase cada sílaba, e as vestes de Aarão, e toda a ordem levítica exalam mistérios celestes.
Porventura os Números não contêm os mistérios de toda a aritmética, e da profecia de Balaão, e das quarenta e duas estações pelo deserto?
O Deuteronómio também, segunda lei e prefiguração da lei evangélica — não contém ele as coisas que são anteriores de tal modo que, todavia, tudo é novo do antigo? Até aqui Moisés, até aqui o Pentateuco, com cujas cinco palavras o Apóstolo se gloria de preferir falar na Igreja.
Jó, o modelo de paciência — que mistérios não abrange no seu discurso? Começa em prosa, flui em verso e termina em discurso pedestre; e determina todas as leis da dialéctica pela proposição, assunção, confirmação e conclusão. Cada uma das suas palavras está cheia de sentido. E (para nada dizer do restante) assim profetiza a ressurreição dos corpos que ninguém sobre ela escreveu nem mais claramente nem mais cautelosamente. «Sei, diz, que o meu Redentor vive, e no último dia me levantarei da terra; e de novo serei revestido da minha pele, e na minha carne verei a Deus, a quem eu mesmo hei-de ver, e os meus olhos contemplarão, e não outro. Esta minha esperança está depositada no meu seio.»
Venho a Josué filho de Nave, que ostenta a figura do Senhor não só nos seus feitos mas até no seu nome; atravessa o Jordão, derruba os reinos dos inimigos, divide a terra para o povo vencedor, e, por cada uma das cidades, aldeias, montes, rios, torrentes e fronteiras, descreve os reinos espirituais da Igreja e da Jerusalém celeste.
No livro dos Juízes, tantos príncipes do povo, tantas figuras há.
Rute, a moabita, cumpre a profecia de Isaías, que diz: «Envia o cordeiro, ó Senhor, o dominador da terra, da pedra do deserto ao monte da filha de Sião.»
Samuel, com a morte de Eli e o assassínio de Saul, mostra a antiga lei abolida. Além disso, em Sadoc e David, atesta os mistérios de um novo sacerdócio e de um novo reino.
Melaquim, isto é, o terceiro e quarto livro dos Reis, de Salomão até Jeconias, e de Jeroboão filho de Nabat até Oseias, que foi levado para os Assírios, descreve o reino de Judá e o reino de Israel. Se olhares para a história, as palavras são simples; se examinares o sentido oculto no texto, narram-se a pequenez da Igreja e as guerras dos hereges contra a Igreja.
Os doze profetas, comprimidos na estreiteza de um só volume, prefiguram muito mais do que aquilo que soa na letra.
Oseias frequentemente nomeia Efraim, Samaria, José, Jezrael, e uma mulher meretriz, e filhos de fornicação, e uma adúltera encerrada no quarto do marido, sentada como viúva por longo tempo, e sob vestes de luto, aguardando o regresso do marido a si.
Joel, filho de Fatuel, descreve a terra das doze tribos consumida pela lagarta, pelo gafanhoto, pela locusta e pela ferrugem devastadora; e, depois da subversão do primeiro povo, que o Espírito Santo seria derramado sobre os servos e servas de Deus, isto é, sobre os cento e vinte nomes de crentes, e seria derramado no cenáculo de Sião. Estes cento e vinte, subindo gradualmente por incrementos de um até quinze, produzem o número dos quinze degraus, que misticamente se contêm no Saltério.
Amós, pastor e rústico, colhendo amoras de silvados, não pode ser explicado em poucas palavras. Pois quem pode dignamente exprimir os três ou quatro crimes de Damasco, de Gaza, de Tiro, de Edom, dos filhos de Amón e de Moab, e no sétimo e oitavo grau, de Judá e de Israel? Ele fala às vacas gordas que estão no monte de Samaria, e testifica que a casa maior e a menor hão-de cair. Ele próprio vê o criador do gafanhoto, e o Senhor de pé sobre um muro caiado ou de diamante, e um gancho de frutos, atraindo castigos sobre os pecadores, e fome na terra — não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a palavra de Deus.
Abdias, cujo nome significa servo de Deus, troveja contra Edom, o homem sanguinário e terreno; e fere com uma lança espiritual aquele que sempre foi rival do seu irmão Jacob.
Jonas, a belíssima pomba, prefigurando pelo seu naufrágio a paixão do Senhor, chama o mundo à penitência, e sob o nome de Nínive anuncia a salvação às gentes.
Miqueias de Morasti, co-herdeiro de Cristo, anuncia a devastação da filha do ladrão, e põe cerco contra ela: porque feriu a face do juiz de Israel.
Naum, o consolador do mundo, repreende a cidade de sangue, e depois da sua destruição diz: «Eis sobre os montes os pés daquele que traz boas novas e anuncia a paz.»
Habacuc, o lutador forte e inflexível, está na sua vigia e firma o pé sobre a fortaleza, para contemplar Cristo na cruz e dizer: «A sua glória cobriu os céus, e a terra está cheia do seu louvor. O seu esplendor será como a luz; chifres estão nas suas mãos: ali está escondida a sua fortaleza.»
Sofonias, sentinela e conhecedor dos segredos de Deus, ouve o clamor da Porta dos Peixes, e o ululado do Segundo Bairro, e a destruição das colinas. Proclama também um uivo para os habitantes do Almofariz, porque todo o povo de Canaã emudeceu, e todos os que estavam envolvidos em prata pereceram.
Ageu, festivo e alegre, que semeou em lágrimas para ceifar em alegria, edifica o templo destruído, e introduz Deus Pai a falar: «Ainda um pouco, e eu comoverei o céu e a terra, o mar e a terra firme, e moverei todas as gentes, e virá o Desejado de todas as gentes.»
Zacarias, lembrado do seu Senhor, multíplice em profecia, vê Jesus vestido com vestes sórdidas, e a pedra dos sete olhos, e o candelabro de ouro com tantas lâmpadas quantos olhos, e também duas oliveiras à esquerda e à direita da lâmpada; para que, depois dos cavalos negros, vermelhos, brancos e malhados, e das quadrigas dispersas de Efraim e do cavalo de Jerusalém, profetize e proclame um rei pobre, sentado sobre um jumentinho, filho de uma jumenta sob o jugo.
Malaquias, abertamente, e no fim de todos os Profetas, sobre a rejeição de Israel e a vocação das gentes: «Não tenho prazer em vós, diz o Senhor dos exércitos, e não aceitarei oferenda da vossa mão. Pois do nascente do sol até ao poente, o meu nome é grande entre as gentes; e em todo o lugar se oferece incenso e uma oblação pura se apresenta ao meu nome.»
Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel — quem os pode entender ou expor? O primeiro parece-me tecer não profecia, mas um Evangelho.
O segundo entrelaça uma vara de amendoeira, e um caldeirão a ferver da face do norte, e um leopardo despojado das suas cores, e um quádruplo alfabeto em metros diversos.
O terceiro tem o seu princípio e fim envolvidos em tão grandes obscuridades que entre os Hebreus estas partes, juntamente com o começo do Génesis, não se lêem antes dos trinta anos de idade.
O quarto, na verdade, o último dos quatro profetas, ciente dos tempos e da pedra de todo o mundo cortada do monte sem mãos e que derruba todos os reinos, proclama-o em discurso claro.
David, o nosso Simónides, o nosso Píndaro e Alceu, o nosso Horácio também, Catulo e Sereno, faz ressoar Cristo na lira, e no saltério de dez cordas levanta o ressuscitado dos infernos.
Salomão, o pacífico e amado do Senhor, corrige os costumes, ensina a natureza, une a Igreja e Cristo, e canta o doce epitalâmio das santas núpcias.
Ester, na figura da Igreja, liberta o povo do perigo; e, morto Amã — cujo nome significa iniquidade — envia as porções do banquete e o dia célebre à posteridade.
O livro dos Paralipómenos, isto é, o epítome do Antigo Testamento, é tão grande e de tal natureza que quem quisesse arrogar-se o conhecimento das Escrituras sem ele faria de si mesmo objecto de riso. Pois, por cada um dos seus nomes e articulações de palavras, tanto se tocam as histórias omitidas nos livros dos Reis, como se explicam inumeráveis questões do Evangelho.
Esdras e Neemias — isto é, auxiliador e consolador da parte do Senhor — estão comprimidos num só volume; restauram o templo, erguem os muros da cidade; e toda aquela multidão de povo que regressa à pátria, e a enumeração de sacerdotes, levitas, israelitas e prosélitos, e as obras de muros e torres distribuídas por cada uma das famílias — apresentam uma coisa na superfície e retêm outra na medula. Vês que eu, arrebatado pelo amor das Escrituras, excedi a medida própria de uma carta, e contudo não cumpri o que desejava. Ouvimos apenas o que devemos conhecer, o que devemos desejar, para que também nós possamos dizer: «A minha alma desejou ardentemente os teus estatutos em todo o tempo.» No mais, aquela sentença socrática se cumpre em nós: «Só sei isto: que nada sei.»
Toquemos também brevemente o Novo Testamento.
Mateus, Marcos, Lucas e João — a quadriga do Senhor e o verdadeiro Querubim, que se interpreta «multidão de ciência» — estão cobertos de olhos por todo o corpo; faíscas brilham, relâmpagos correm; têm pés direitos e que tendem para o alto, dorsos alados e que voam por toda a parte; seguram-se mutuamente e estão entrelaçados entre si, e como roda dentro de roda giram, e vão para onde quer que o sopro do Espírito Santo os conduza.
O apóstolo Paulo escreve a sete igrejas, pois a oitava, aos Hebreus, é colocada pela maioria fora do número. Instrui Timóteo e Tito, e intercede junto de Filémon em favor de um servo fugitivo. Sobre o que julgo melhor calar do que escrever pouco.
Os Actos dos Apóstolos parecem de facto ressoar uma história nua e tecer a infância da Igreja nascente; mas se soubermos que o seu autor, Lucas, é médico, cuja glória está no Evangelho, observaremos igualmente que todas as suas palavras são medicina para a alma enferma.
Tiago, Pedro, João e Judas publicaram sete Epístolas, tão místicas quanto concisas, e ao mesmo tempo breves e longas — breves nas palavras, longas nos sentidos — de modo que raro é aquele que não tateia às cegas ao lê-las.
O Apocalipse de João tem tantos mistérios quantas palavras. Disse pouco: todo o louvor fica aquém do mérito do livro. Em cada uma das suas palavras jazem ocultas múltiplas significações. Peço-te, irmão caríssimo, que vivas entre estas coisas, que medites nelas, que nada mais saibas, que nada mais busques. Não te parece já aqui na terra uma morada do reino celeste? Não quero que te escandalize a simplicidade, e como que a vileza, das palavras nas santas Escrituras, que foram produzidas ou por culpa dos tradutores, ou deliberadamente, para que mais facilmente instruíssem uma congregação inculta, e para que numa mesma sentença o douto ouvisse uma coisa e o indouto outra. Não sou tão petulante e obtuso que prometa conhecer estas coisas e poder colher os frutos daquelas cujas raízes estão fixas no céu; mas confesso que o desejo. Prefiro-me àquele que fica sentado sem nada fazer; recusando ser mestre, ofereço-me como companheiro. Àquele que pede é-lhe dado; àquele que bate abre-se-lhe; aquele que busca encontra. Aprendamos na terra aquela ciência que perdurará para nós no céu. Receber-te-ei de braços abertos, e (para balbuciar algo de insensato, ao modo da pomposidade de Hermágoras) tudo o que buscares, tentarei sabê-lo juntamente contigo. Tens aqui o teu amantíssimo irmão Eusébio, que duplicou para mim a graça da tua carta, relatando a rectidão dos teus costumes, o teu desprezo do mundo, a tua fidelidade na amizade e o teu amor a Cristo. Pois a tua prudência e a graça da tua eloquência, a própria carta já as mostrava mesmo sem ele. Apressa-te, peço-te, e antes corta do que desata a corda do pequeno barco encalhado na rebentação. Ninguém que esteja prestes a renunciar ao mundo pode proveitosamente vender aquilo que desprezou para vender. O que quer que tenhas gasto dos teus próprios recursos, conta-o como ganho. É um antigo dito: ao avarento tanto lhe falta o que tem como o que não tem. Para o crente, o mundo inteiro é riqueza; mas o incrédulo tem necessidade até de um óbolo. Vivamos como se nada tivéssemos, e contudo possuindo todas as coisas. Alimento e vestuário são as riquezas dos cristãos. Se tens os teus bens em teu poder, vende-os; se não os tens, lança-os fora. Àquele que te tira a túnica, também o manto deve ser deixado. Certamente, a não ser que tu, sempre adiando para amanhã e arrastando de dia para dia, cautelosa e passo a passo vendas os teus pequenos haveres, Cristo não tem meios para alimentar os seus pobres. Deu tudo a Deus aquele que se ofereceu a si mesmo. Os apóstolos deixaram apenas um barco e redes. A viúva lançou duas pequenas moedas no tesouro, e é preferida às riquezas de Creso. Facilmente despreza todas as coisas aquele que sempre considera que há-de morrer.
DO CULTO DE JESUS CRISTO NAS ESCRITURAS.
Esta carta, extraída da obra intitulada Lettres à un jeune homme sur la vie chrétienne, do P. H. D. Lacordaire, Paris, 1858, publicada por Poussielgue-Rusand, reproduzida com a graciosa permissão tanto do Autor como do Editor, para enriquecer — antes, para adornar — a nossa edição; nenhum leitor deixará de a receber com gratidão.
O primeiro lugar onde encontramos aqueles que amamos é a sua história. A história é o passado da vida sobrevivendo a si mesmo numa recordação escrita. Não haveria amizade se a memória não ressuscitasse na alma e nela não mantivesse presentes aqueles a quem demos o nosso coração. É aí que eles vivem da nossa própria vida, aí que os vemos connosco, aí que os seus traços e as suas acções permanecem impressos e se conservam num relevo que faz parte do nosso ser. Mas a memória, mesmo a mais fiel, é curta por alguns lados, e, se quer transmitir-se a outros legando-lhes a imagem amada, é preciso que se transforme em história e se grave num bronze que despreza o tempo. A história é a memória de um século imortalizado. Por ela, as gerações aproximam-se, e, por mais apressadas que estejam no seu curso e no seu desaparecimento, vão buscar ao fogo da recordação a unidade que constitui a sua alma e o seu parentesco. Um homem que não tem história está inteiramente na sua sepultura; um povo que não ditou a sua ainda não nasceu.
Do que se segue que a religião, sendo a primeira entre todas as coisas humanas, deve ter uma história que seja também a primeira, e que Jesus Cristo, sendo o centro e o fundamento da religião, deve ocupar nos anais do mundo um lugar que nenhum outro — conquistador, filósofo ou legislador — poderia alcançar. Assim é, meu caro Emanuel. Por mais que se cave na antiguidade ou se desça de novo às idades modernas, nada aparece com o carácter das nossas Escrituras, nem nada com a majestade de Jesus Cristo. Não me detenho a mostrar-vo-lo; fi-lo noutro lugar, e fica entendido que entre vós e mim não é a questão da apologética que nos ocupa, mas a questão da vida — isto é, de conhecer e amar a Deus pelo conhecimento e pelo amor de Jesus Cristo.
Ora, quer para conhecer, quer para amar, é preciso aproximar-se do objecto que conquistou os pressentimentos do nosso coração, olhá-lo, estudá-lo, voltar a ele sem que nenhuma fadiga interrompa jamais este ardor de descoberta e de posse; e, se a morte ou a ausência no-lo tiraram dos olhos, se os séculos lançaram entre ele e nós longos intervalos, é à sua história que devemos tornar a pedi-lo. Não notastes, no decurso dos vossos estudos clássicos, a incompreensível e divina magia da história? De onde vem que a Grécia seja para nós como uma pátria que nunca morre? De onde vem que Roma, com a sua tribuna e as suas guerras, nos persiga ainda com a sua invencível imagem, e domine com as suas grandezas extintas uma posteridade que não é a sua? Porque é que estes nomes de Milcíades e de Temístocles, porque é que estes campos de Maratona e de Salamina, em vez de serem túmulos esquecidos, são coisas da nossa época, coroas tecidas ontem, aclamações que ressoam e se agarram às nossas entranhas para as abalar? Não posso, faça o que fizer, escapar ao seu poder; sou Ateniense, Romano; habito ao pé do Pártenon, e escuto em silêncio, ao sopé da Rocha Tarpeia, Cícero que me fala e me comove. É a história que faz isto. Uma página escrita há dois mil anos venceu esses dois mil anos; vencerá mais dois mil, e assim sempre até que a eternidade substitua o tempo, e que Deus, que é todo o futuro, seja para nós também todo o passado. Mas bem entendeis que este domínio sobre a memória dos homens não pertence à primeira página que venha, escrita pelo primeiro escriba que venha, sobre quaisquer feitos dos seus contemporâneos. Não, a história é um privilégio, um dom concedido ao génio em favor dos grandes povos e das grandes coisas. Não há história do Baixo Império, e nunca haverá; foi Roma que produziu Tito Lívio antes de morrer, e foi ainda Roma que inspirou Tácito, trazendo-lhe de volta sob Nero a alma dos seus cônsules.
Mas que é Roma ou a Grécia diante do cristianismo? Que é Alexandre ou César diante de Jesus Cristo? A religião não é o interesse de um povo; é o de toda a humanidade; a sua história não é a história de um homem; é a história de Deus. E se Deus deu historiadores a certas nações porque tinham virtudes, e a certos homens porque tinham génio, que não terá Ele feito pelo seu Filho único, predestinado desde a origem a vir entre nós e a encher de sua presença todos os tempos e todos os lugares? A história de Jesus Cristo é a história do céu e da terra. Aí devem encontrar-se os planos de Deus para o mundo, as leis primordiais e universais, os começos das raças, a sucessão dos acontecimentos que agiram sobre o curso geral das coisas humanas, as direcções da providência, as profecias do futuro, a eleição dos povos e dos séculos, a glória dos homens predestinados para os desígnios eternos, a luta do bem contra o mal nas suas manifestações mais profundas, a promulgação autêntica da verdade, e enfim, acima de tudo, do cimo à base, a figura de Cristo iluminando tudo com a sua luz e a sua beleza. Reconheceis nestes traços as nossas santas Escrituras; sabeis que foram traçadas sob a inspiração do sopro de Deus, que moveu a vontade dos escritores, suscitou e dirigiu os seus pensamentos, e que assim elas não são apenas um edifício admirável de antiguidade, de unidade e de santidade, mas um edifício divino, a obra substancial da verdade infinita, em que os profetas não puseram senão a veste do seu estilo e o acento da sua alma, para que houvesse algo de humano nisso como em tudo, e para que a imutável divindade do fundo aparecesse ainda mais através dos acidentes variáveis do elemento humano. Obra de quatro mil anos, nela aparece a mão de muitos, mas uma só inteligência a preside, e é o encontro do um e do múltiplo num tão longo espaço que constitui o primeiro milagre desta sublime composição. Quando a abrimos sem conhecer o seu verdadeiro autor, como um simples livro, não podemos resistir à autoridade do seu carácter, e nela reconhecemos, pelo menos, o monumento de história, de legislação, de moral e de eloquência mais espantoso que existe debaixo do céu. Mas para nós, que sabemos quem foi o historiador, quem o legislador e o poeta, um sentimento bem diferente se apodera de nós: não é apenas a admiração nem o espanto; é a adoração da fé e o estremecimento de uma gratidão sobrenatural. Aí, desde a primeira linha, vêm cair a nossos pés o erro do homem na sua infância e o erro do homem degenerado, as ficções da idolatria, que vê Deus em toda a parte, e as negações do panteísmo, que não O vê em parte alguma. No princípio, Deus criou o céu e a terra (1). Desta primeira palavra até à última — Que a graça de Nosso Senhor seja convosco todos (2) — a luz avança sempre crescendo, semelhante a um sol que não tivesse declínio, e cuja ascensão contínua aumentasse a todo o instante o brilho e o calor. Já não é uma escrita; é uma palavra. Já não é uma letra morta escondendo sob as suas pregas verdades descobertas pelo raciocínio e pela observação; é uma palavra viva, a palavra eterna de Deus.
Que palavra, Emanuel — a palavra de Deus! Nada há de mais doce do que a palavra do homem quando sai de uma inteligência recta e de um coração que nos ama; ela penetra-nos, toca-nos, encanta-nos, adormece as nossas dores e exalta as nossas alegrias; é o bálsamo e o incenso da nossa vida. Que será então a palavra de Deus para quem sabe reconhecê-la e ouvi-la? Que será poder dizer a si mesmo: Deus inspirou este pensamento; é Ele que me fala nele, é a mim que é dito, sou eu que o ouço? E quando se chegou, de página em página, à própria palavra de Jesus Cristo, àquela palavra que já não era uma simples inspiração interior e profética, mas o sopro sensível da divindade, a expressão palpável do Verbo de Deus, ouvida pelas multidões tanto como pelos discípulos — que resta senão calar-se aos pés do mestre, e deixar ressoar na nossa alma o eco da sua voz?
A Escritura é ao mesmo tempo a história de Jesus Cristo e a palavra de Deus. Ela tem de uma ponta à outra este duplo carácter. Desde a primeira página, sob as sombras comovidas do paraíso terrestre, anuncia-nos a vinda do Salvador dos homens. Esta promessa, transmitida aos patriarcas, toma de livro em livro uma clareza que enche todos os acontecimentos e os impele para o futuro como uma preparação e uma prefiguração do que é esperado. O povo de Deus forma-se no exílio e no combate; Jerusalém funda-se, Sião eleva-se; a linhagem do Messias, desprendendo-se do fundo primitivo das tribos patriarcais, desabrocha em David, que passa dos rebanhos de Belém ao trono de Judá, e dali contempla e canta o filho que lhe há-de nascer da sua posteridade para ser o rei de um reino sem fim (1). Os Profetas retomam sobre o túmulo de David a harpa dos dias que ainda não são; seguem Judá nas suas desgraças, acompanham-no no seu cativeiro; Babilónia ouve, às margens dos seus rios, a voz dos santos que desconhece, e Ciro, o seu vencedor, fala-lhe do Deus que fez o céu e a terra, e que lhe ordenou reconstruir o templo de Jerusalém. Esse templo renasce. Escuta os gemidos e os ardores dos últimos profetas, e, após um intervalo, depois de ter sido profanado pelas nações e purificado pelos Macabeus, vê chegar o Filho de Deus nos braços de uma Virgem, e, dos seus pórticos ao santuário, do santuário ao Santo dos Santos, repete a si mesmo a palavra suprema do velho Simeão: Agora, Senhor, deixai ir o vosso servo em paz, segundo a vossa promessa, porque os meus olhos viram a vossa salvação, a salvação que preparastes diante da face de todos os povos, para ser luz de revelação para eles e glória do vosso povo de Israel (2). Jesus Cristo veio. O Evangelho sucede à lei e às profecias, e a verdade, cumprindo a figura, resplandece sobre o passado, que ela explica depois de dele ter recebido o testemunho. Todos os tempos se encontram em Cristo, e a história adquire sob os seus passos a sua eterna unidade. É Ele que é tudo doravante; é a Ele que tudo se refere, d'Ele que tudo procede; Ele criou todas as coisas, e Ele julgará todas as coisas. O Jordão recebe-O nas suas águas sob a mão do precursor que O baptiza; as montanhas vêem-nO subir as suas encostas seguido de todo um povo, e ouvem da sua boca aquela palavra que nenhum outro proferira ainda: Bem-aventurados os pobres, bem-aventurados os que choram. Os lagos emprestam as suas margens aos seus discursos e as suas ondas aos seus milagres. Humildes pescadores dobram as suas redes ao vê-lO e seguem-nO para se tornarem sob Ele pescadores de homens. Os sábios consultam-nO na sombra da noite; as mulheres acompanham-nO e servem-nO à claridade do dia. Toda a desgraça vem procurá-lO, toda a ferida espera n'Ele, e a morte cede-Lhe, para os devolver às suas mães, filhos já chorados. Ama São João, o jovem, e Lázaro, o homem maduro. Fala à Samaritana e abençoa a estrangeira. Uma pecadora unge-Lhe a cabeça e beija-Lhe os pés; uma adúltera encontra graça diante d'Ele. Confunde a vã sabedoria dos doutores e expulsa do templo os que faziam do lugar de oração um lugar de comércio. Subtrai-Se à multidão que O quer proclamar rei, e, quando entra em Jerusalém precedido dos hosanas que saúdam n'Ele o filho de David e o redentor do mundo, entra montado numa jumenta coberta com as vestes dos seus discípulos. A Sinagoga julga-O, a Realeza despreza-O, Roma condena-O; morre numa cruz abençoando o mundo, e o centurião que O vê morrer entre os insultos da multidão e as blasfémias dos grandes, reconhece, batendo no peito, que Ele é o Filho de Deus. Um sepulcro recebe-O das mãos da morte; mas, ao terceiro dia, esse sepulcro, guardado pelo ódio, abre-se por si mesmo e deixa passar triunfante o senhor da vida. Os seus discípulos revêem-nO; as suas mãos tocam-nO e adoram-nO, a sua boca confessa-O; recebem d'Ele as suas últimas instruções, e, estando tudo o que deve ser visível consumado para o homem, o Filho de Deus e o filho do homem toma sobre uma nuvem o caminho do céu, deixando aos seus apóstolos o mundo a conquistar. Logo Pedro, o pescador, todo iluminado pelas comoções do Espírito Santo, desce às portas do cenáculo e dirige-se à multidão, espantada de o ouvir, apesar da diversidade das suas origens e das suas línguas. Paulo, o perseguidor, não tarda a aparecer ao seu lado; leva o nome de Jesus às nações, das quais é o apóstolo; Antioquia possui-se dele, Atenas escuta-o, Corinto recebe-o, Éfeso expulsa-o e abençoa-o, Roma enfim toca nas suas cadeias e bebe do seu sangue sobre o seu glorioso pó. João, o mais íntimo dos discípulos de Cristo, o hóspede sagrado do seu peito, está de pé nas praias de Patmos, e, o último dos profetas, anuncia à Igreja as suas transfigurações no sofrimento e na glória até ao fim dos séculos.
A história de Jesus Cristo divide-se assim em três períodos distribuídos ao longo de quatro mil anos: os tempos proféticos, os tempos evangélicos e os tempos apostólicos. No primeiro, Jesus Cristo é esperado e preparado; no segundo, manifesta-Se, vive e morre no meio de nós; no terceiro, funda a sua Igreja através dos apóstolos, que viveram com Ele, que receberam os seus ensinamentos e herdaram os seus poderes. Este tecido nunca se interrompe e traz em si, por si mesmo, a demonstração da sua verdade. Mas uma coisa é sentir a verdade de uma prova, outra coisa é nutrir-se da verdade sentida. Assim como há dois momentos na amizade — aquele em que nos asseguramos de que nos amam, e aquele em que gozamos a felicidade de sermos amados — assim também na vida sobrenatural do cristianismo há dois momentos distintos: aquele em que reconhecemos Jesus Cristo na divindade da sua história, e aquele em que nos abandonamos à inefável doçura dessa história verificada. Neste segundo momento, as dúvidas fugiram, a certeza é senhora; já não se procura, já não se examina, já não se toma escândalo: a história torna-se palavra, a própria palavra de Deus, e essa palavra flui na alma como um rio de luz e de unção. Penetra até às últimas fibras das nossas mais remotas faculdades, como o sangue que anima as nossas veias abre caminho até às extremidades dos nossos mais misteriosos órgãos; dá-nos o desapego de todo o outro alimento espiritual, ou antes, tudo o que lemos e tudo o que pensamos se transfigura ao contacto desta torrente de graça e de verdade que nos vem da Escritura, e, através da Escritura, do próprio espírito de Deus.
Quando li as Escrituras pela primeira vez, não tinha fé: de modo que não foi a impressão do crente que experimentei, mas a do homem de boa vontade. Pareceu-me que tinha entre as mãos um livro muito diverso, escrito a longos intervalos por homens muito diferentes, mas que todos aqueles fragmentos reunidos formavam um só corpo de grande beleza. Todavia, é-me difícil exprimir o que senti, porque a recordação daquela primeira leitura foi como que absorvida pelo sentimento que dela tenho recebido desde então. É hoje, depois de trinta anos de fé, que as Escrituras me são verdadeiramente conhecidas, pelo menos no grau a que o comum das almas pode chegar. O Génesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronómio são, juntamente com os livros históricos que os seguem, uma vasta narrativa das origens do mundo, da humanidade, do povo de Deus, do seu culto e da sua legislação, das suas guerras e das suas vicissitudes: nada de comparável se encontra em nenhuma literatura profana, e o carácter sobrenatural da narração transparece por toda a parte aos olhos da razão assim como aos da fé. A emoção só aí ocupa um lugar fraco; não é um drama em que o coração é abalado como por uma música, e em que as lágrimas correm livremente diante da narrativa: é a história de uma humanidade ainda na sua infância, grave, simples, monumental, iluminada pela mão de Deus nas grandes linhas dos seus acontecimentos, coberta pelo véu dos tempos e dos costumes antigos, e em que o homem dos nossos dias permanece estrangeiro por tudo o que nele é efémero e pessoal. Ouve-se, naquela atmosfera distante, a voz de Deus que cria, a queda do homem que cai, o ruído de um mundo que se corrompe e é punido de morte, o gemido da justiça divina contra as cidades culpadas, e a promessa de um libertador que se fortalece e se precisa à medida que se avança naquele largo e insondável horizonte. Tudo aí é calmo, solene e sem pressa; nenhum traço de paixão perturba a serenidade das coisas e da linguagem; o historiador sagrado só pensa em Deus, no povo de Deus e na salvação do mundo. Do alto deste pensamento, vê passar os séculos e as gerações sem se comover com outra coisa que não seja a glória e a misericórdia divinas. Dir-se-ia estar num deserto com o sol por companheiro, de tal modo o fundo destes livros é ao mesmo tempo imóvel, luminoso e árido. Nunca o lado fraco e ardente do nosso ser encontra aí o seu alimento. Apenas aqui e ali, nalgum fragmento de uma história mais próxima de nós, sentimos levemente mover-se a brisa da humanidade. José reencontrando os seus irmãos que outrora o venderam, Tobias abraçando o seu velho pai depois de uma longa ausência e mais longas angústias, os Macabeus libertando a sua pátria do jugo do estrangeiro: estas cenas e algumas outras reconduzem-nos ao lar da nossa natureza, mas raramente e com uma espécie de divina parcimónia. Quando li aquele famoso Cântico dos Cânticos, a que Voltaire chamava com tanto gosto uma canção de caserna, fiquei espantado de permanecer tão frio diante de tão grande e tão oriental nudez de expressão; perguntei a mim mesmo por que razão, julgando ter encontrado a única passagem da Bíblia que fosse um campo para as emoções apaixonadas, não experimentava senão calma e pureza. É que a Escritura, toda inspirada por Deus como é, nada comunica que não seja de Deus. Mesmo quando emprega a linguagem da paixão, é Deus quem nela fala, e o coração humano que nela se reflecte só deixa perceber a parte divina — aquela que é o seu fundo eterno e a sua beleza incorruptível. É por isso que a primeira leitura da Escritura não comove; é preciso voltar a ela com paciência e durante muito tempo; é preciso exercitar-se nela e nutrir-se dela para lhe apreender o sabor; é preciso vencer o espírito da carne, como fala o apóstolo São Paulo, antes de conhecer e sentir o espírito de Deus, e a vida não é longa para esta iniciação. O lavrador espera que a terra lhe dê o fruto da sua sementeira; o mineiro não se detém à abertura do solo — cava, desce, revolve a terra com as suas mãos ensanguentadas, e é só no fundo do poço que a riqueza lhe aparece. A Escritura é um poço cavado pela mão de Deus: ide até ao fundo, e o tesouro será vosso.
Seria, portanto, em vão que eu pedisse ao leitor que se sentasse pela primeira vez diante da Bíblia com um sentimento de descanso e de prazer pessoal. O mel não escorre ao longo das suas páginas; nada do que pertence ao homem é nela lisonjeado. Todos os interesses de curiosidade vulgar que nos prendem às composições humanas faltam neste primeiro encontro com o livro sagrado, e, se o leitor não se lançar a ele numa luta audaz, se não for cristão ou filósofo — quero dizer, inundado de fé ou de respeito — será tentado a fechar o livro ou a abri-lo apenas por um descuidado amor de saber. Encorajo-o a fazê-lo, contudo, e eis a razão.
Há nos livros de Moisés e nos livros históricos do Antigo Testamento, tomados separadamente, um mérito superior de originalidade, de grandeza e de narração, que os coloca no primeiro lugar entre os escritos do mesmo género. Não basta dizer que as civilizações da antiguidade não têm anais tão veneráveis pela sua data e pelo seu carácter, uma vez que os livros mais antigos que nos restam, depois dos livros de Moisés, são os poemas de Homero, posteriores ao Pentateuco em pelo menos cinco séculos: não basta dizê-lo, porque os livros de Moisés não se distinguem apenas pela antiguidade da redacção, mas pela simplicidade da narrativa, pela ausência de toda a ficção fabulosa, por um certo acento indefinível de paternidade que participa ao mesmo tempo do pai, do rei e do profeta. Por mais que o homem envelheça, nunca perde a recordação de uma mão posta com autoridade e com doçura sobre os seus primeiros anos, e gosta de a sentir na sua memória, mesmo quando ela aí não deixou vestígios de virtude. Quanto mais, pois, quando um pai foi justo, inteligente, heróico e inspirado por Deus, quando fundou no deserto, combatendo e morrendo, uma nação que haveria de durar quatro mil anos — o filho desse homem, por mais afastado dele que esteja pelo tempo, reconhece sempre nele uma potência de sangue e de génio que não tem igual em nenhum povo e em nenhuma idade. Se os Hebreus tivessem sido um povo como qualquer outro, teriam há muito perdido até a memória do seu nome, absorvidos pela conquista universal da civilização cristã. É o sangue de Moisés que os conservou, como é o sangue de Cristo que os conservará.
Lede, pois, os livros de Moisés e os livros históricos do Antigo Testamento; lede-os a vosso bel-prazer, sem pressa alguma, lembrando-vos de que estais a ler o mais antigo dos monumentos do espírito humano. Detende-vos quando a narrativa vos cansar; voltai quando o recolhimento e o descanso tiverem refrescado a vossa alma. Bebei pouco, mas frequentemente. Considerai que o mundo saiu destas páginas e que a vossa civilização mais avançada nunca será senão um comentário do Decálogo e das profecias.
Todavia, quando chegardes aos Salmos de David e aos Profetas, um mundo novo se abrirá diante de vós. A prosa cederá lugar à poesia, a narrativa ao entusiasmo, e o homem de Deus, penetrado do sopro que inspira e que eleva, não tocará mais a terra senão por intervalos. Aí está a grande poesia bíblica, o cântico dos cânticos, a lira que todos conhecem mesmo sem a ter ouvido. Neste ponto da Escritura, o coração que mal batia é por ela tomado, e, se é capaz de se abrir, rende-se a uma admiração apaixonada que só conheceu ao ler Homero ou Virgílio. Mas, ao ler Homero e Virgílio, sentia-se que o homem de génio era uma extremidade da nossa natureza, uma espécie de música tirada das nossas próprias profundezas para nos encantar a nós mesmos. Aqui vai-se muito além: já não é o homem que canta as suas próprias dores e as suas próprias alegrias; é um ser transportado para fora de si mesmo pela visão de Deus. Ele vê a Deus, e o que exprime com os restos de uma voz humana quebrada por essa presença, nenhuma outra voz o saberia dizer. É o céu falando à terra, não com a calma da omnipotência, mas com uma ternura infinita que a corrupção da terra mudou em dor. É um Deus chamando um povo infiel e amado; é um pai que suplica, que ameaça, que chora, que geme; é um profeta que vê passar os séculos diante de si e que assiste ao espectáculo da criação renovada na justiça; é um rei pecador e arrependido que confessa as suas culpas e pede misericórdia; é um justo abandonado que já não tem senão a Deus por amigo; é um pastor que vigia e que espera; é um coração que transborda de amor, de lamentos e de bênçãos. Toda a Escritura é bela, mas os Salmos e os Profetas são o seu cimo de glória, e é aí que David e Isaías, sentados na luz que os arrebata, esperam o viajante cristão para lhe dar o último baptismo da fé e do amor.
De onde vem, dir-me-eis, este poder dos salmos e das profecias? Pode-se dar conta dele? Sim, meu caro Emanuel, pode-se dar conta dele, e a fonte desta eloquência está na relação que ela tem com Jesus Cristo. Considerado nos livros de Moisés e na história do povo hebreu, Jesus Cristo esconde-Se sob os acontecimentos; Ele é a sua alma e o seu fim, mas de um modo oculto que só aparece pela revelação dos tempos e dos factos. É preciso perfurar o invólucro para O alcançar, e, quando se O alcançou sob esse espesso tecido de actos, de ritos e de leis que O recobrem, o raio da sua face não é ainda senão uma claridade emprestada de reflexos longínquos e misteriosos. Mas nos salmos e nas profecias, o véu cai, o mistério aclara-se, a pessoa de Jesus Cristo desenha-se; percebe-se que nasce de uma virgem, seguem-se os seus passos e as suas dores, assiste-se à sua morte, vê-se triunfar ao terceiro dia, e, sentado à direita do seu Pai, governar dali a Igreja e o mundo até ao fim dos séculos. Mas não é apenas esta clareza que dá aos salmos e às profecias a emoção que nos comunicam; é o amor que transpõe a luz. Não basta ver as coisas; é preciso amá-las. Vê-las ilumina; amá-las transporta. E nada nos leva para além de nós mesmos como o espectáculo de um homem abrasado de Deus ao debruçar-se sobre o berço e a cruz de Jesus Cristo. Há neste amor uma força que não tem análogo, nem mesmo no amor da mãe e da esposa, porque o seu objecto é infinito, e a natureza nada pode de comparável ao que faz a graça. Tudo o que o génio fez de mais grandioso ao serviço da natureza — os cantos de Homero sobre a cólera de Aquiles, os de Virgílio sobre as desgraças de Eneias, os gemidos da Fedra de Racine; Romeu e Julieta de Shakespeare; o Lago de Lamartine, com as suas águas, as suas margens e a sua amada — tudo isso é nada ao pé do Miserere de David, das Lamentações de Jeremias e do quinquagésimo terceiro capítulo de Isaías. Onde está, pois, a razão desta diferença, senão no objecto do amor que inspirou estas duas ordens de poesia? Quando Aquiles chorou o seu amigo morto em combate, quando Eneias perdeu as margens da pátria, quando Fedra confessou a si mesma o horror da sua paixão, quando Romeu e Julieta adormeceram no sono do seu amor, e quando a amada de Lamartine voltou os olhos pela última vez para as águas que tinham embalado as suas confidências — a musa do homem está esgotada. Ela exauriu tudo o que havia nela de fecundo e de terno; cai murchada à beira desses túmulos que encantou por um momento, e resta-lhe, numa eterna viuvez, apenas a recordação da sua própria voz. Mas quando David chorou o seu pecado, quando Jeremias chorou sobre Jerusalém, quando Isaías viu de longe a paixão do seu Salvador, a sua alma não foi diminuída por tudo o que dera; a fonte donde hauriram cresceu neles com as torrentes da sua palavra, e, bem mais felizes do que os poetas do homem, não confiaram a guarda da sua memória a túmulos, mas a altares. Nesses altares, erguidos por todo o mundo cristão, senta-se um homem e está de pé um povo: o homem é o sacerdote; o povo somos todos nós. Nem esse homem nem esse povo são arqueólogos ocupados com ruínas; são crentes, adoradores, suplicantes, que todos os dias repetem os salmos de David nos mesmos lugares e com a mesma fé que os Levitas de Jerusalém, a três mil anos de distância, e que oram a Deus, o Pai de Jesus Cristo, com os mesmos acentos com que os profetas oraram ao Pai do Messias, Salvador deles e nosso.
Os salmos e as profecias são a grande leitura do cristão. Nenhuma literatura supera essa; nenhuma poderia a tal ponto nutrir a alma e dar-lhe o pão do céu no pão da terra. Mas o momento capital da Escritura não está aí; está no Evangelho, isto é, no relato vivo e pessoal da vida de Cristo. Até aqui, Jesus Cristo não nos aparecera senão na profecia; só falara pela boca dos seus enviados; só se revelara a eleitos, e nesses eleitos apenas a uma parte da sua alma. Mas eis que o véu caiu para sempre, e o que estava escondido no plano de Deus, vagamente entrevisto pela razão, claramente apreendido pelos profetas, manifesta-se ao mundo na sua forma verdadeira e sensível. Um homem apareceu — Deus Ele mesmo — e vamos ouvi-lO.
Quanto ao Evangelho, ele não precisa de tais precauções. Pode-se ser jovem, apaixonado, cheio do mundo e de si mesmo, e o Evangelho saberá bem dizer-nos a sua palavra: não que o nosso primeiro impulso seja compreendê-lo e amá-lo; mas, por mais afastado que se esteja de Cristo pela fé ou pelos costumes, é impossível não sentir diante dessa figura luminosa e clemente um dos maiores golpes jamais desferidos à porta de uma alma humana. Não conheço senão uma coisa para lhe pôr ao lado: a primeira vista dos Alpes num daqueles momentos em que a neve, o céu, o sol, a verdura e as sombras se deram uma perfeita harmonia. Paramo-nos, e escapa-nos um grito. O mesmo sucede com o Evangelho; ele detém-nos e faz-nos soltar um grito.
Ora, que é o Evangelho? É a história de um homem tal como a terra nunca viu e nunca mais verá. Nada mais direi. É um homem que nasceu pobre, que viveu pobre e que morreu pobre; que, da sua própria pobreza, não fez um pedestal para nenhuma grandeza; que nunca escreveu uma só linha, proferiu um só discurso diante de uma grande assembleia, comandou uma só batalha, governou um só povo, exerceu qualquer das artes que fazem a fama, e que, no entanto, encheu o mundo com o seu nome e a sua presença, com uma extensão e uma duração que não deixam atrás de si lugar algum para o que quer que seja de humano. Todos os grandes homens fazem um momento de luz, e depois recaem na obscuridade do seu túmulo. Só Ele foi um astro fixo e crescente; e, se o universo continua a subsistir depois de dois mil anos de cristianismo, é apenas para acabar de se iluminar pela chama de uma vida cuja clareza e cujo calor nada igualou.
Mas abramos o Evangelho; ele falará melhor do que eu.
Escutai as primeiras palavras que nele se encontram: é Jesus Cristo que diz ao seu precursor São João Baptista, o qual queria dissuadi-lO de receber o baptismo de penitência: Deixai por agora, porque convém que cumpramos assim toda a justiça (1).
Eis uma palavra. Não vo-la explico, não a adorno com nada; compreendê-la-eis se puderdes. Mais adiante, após um jejum de quarenta dias no deserto, tentado pelo demónio que Lhe diz: Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pães, Ele responde: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus (2).
Mais adiante ainda, do alto de uma montanha da Galileia, dirigindo-Se à multidão que O segue, diz numa voz que ninguém ouvira ainda: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus (3).
Hei-de citar o Evangelho inteiro? Se dele quisesse extrair tudo o que é digno de ser mostrado fora do quadro em que está engastado, citá-lo-ia por inteiro. Mas não posso dizer tudo, nem posso fazer uma escolha: isso seria admitir que Jesus Cristo disse algo melhor do que outra coisa, o que seria tão mal pensar como mal julgar. Contentar-me-ei com algumas palavras semeadas ao acaso, entre passagens que se referem a ocasiões diferentes.
Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-lho vós também a eles (4).
Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito (5).
Amai os vossos inimigos (6).
Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra (7).
Aquele de entre vós que estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra (8).
Qual de vós Me convencerá de pecado (9)?
Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei (10).
Quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo, assim como o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção de muitos (11).
(1) São Mateus, III, 15. — (2) Ibid., IV, 4. — (3) São Mateus, V. — (4) São Mateus, VII, 12. — (5) São Mateus, V, 48. — (6) Ibid., V, 44. — (7) São Mateus, V, 39. — (8) São João, VIII, 7. — (9) São João, VIII, 46. — (10) São Mateus, XI, 28. — (11) São Mateus, XX, 27.
Todo o que se humilhar será exaltado (1).
Apascenta as minhas ovelhas (2).
Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em Mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar-vos um lugar, e depois de ir e vos preparar um lugar, virei outra vez e tomar-vos-ei comigo, para que onde Eu estou, estejais vós também (3).
Pai, chegou a hora; glorificai o vosso Filho, para que o vosso Filho Vos glorifique (4).
Pai, se é possível, afastai de Mim este cálice; todavia, faça-se a vossa vontade e não a minha (5).
Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem (6).
Nada acrescento.
Quereis que vos mostre uma página de outro género, e talvez mais bela ainda? Escutai a parábola do Filho Pródigo:
Um homem tinha dois filhos, dos quais o mais novo disse a seu pai: Meu pai, dai-me a parte dos bens que me pertence. E o pai repartiu entre eles os seus bens. Poucos dias depois, o mais novo destes dois filhos, tendo ajuntado tudo o que era seu, partiu para um país longínquo, onde dissipou todos os seus bens em excessos e devassidões. Depois de ter gasto tudo, sobreveio uma grande fome naquele país, e ele começou a cair na indigência. Então foi e pôs-se ao serviço de um dos habitantes daquele país, que o enviou para a sua herdade a guardar porcos. E ali desejava encher o ventre com as bolotas que os porcos comiam; mas ninguém lhas dava. Enfim, caindo em si, disse: Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! Tenho de me levantar e ir ter com meu pai, e dizer-lhe: Meu pai, pequei contra o céu e contra vós; já não sou digno de ser chamado vosso filho; tratai-me como um dos vossos jornaleiros. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estando ainda longe, o pai viu-o e ficou cheio de compaixão, e, correndo para ele, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o. E o filho disse-lhe: Meu pai, pequei contra o céu e contra vós; já não sou digno de ser chamado vosso filho. Então o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor veste e vesti-lha; ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também o novilho gordo e matai-o; comamos e façamos festa, porque este meu filho estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado. E começaram a fazer festa.
Ora, o filho mais velho, que estava no campo, voltou; e, quando se aproximou da casa, ouviu a música e as danças. E chamou um dos servos, a quem perguntou o que era aquilo. O servo disse-lhe: O vosso irmão voltou, e vosso pai matou o novilho gordo, porque o recobrou com saúde. O que o encheu de cólera, e ele não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele para que entrasse. Mas ele respondeu a seu pai: Eis que vos sirvo há tantos anos, sem jamais ter desobedecido a nenhum dos vossos mandamentos, e nunca me destes um cabrito para me alegrar com os meus amigos. Mas assim que voltou este vosso filho, que devorou os vossos bens com mulheres perdidas, matastes para ele o novilho gordo. O pai, porém, disse-lhe: Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso fazer festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado (7).
(1) São Mateus, XXIII, 12. — (2) São João, XXI, 17. — (3) São João, XIV, 1, 2, 3. — (4) São João, XVII, 1. — (5) São Mateus, XXVI, 39. — (6) São Lucas, XXIII, 34. — (7) São Lucas, XV, 11.
A esta página poder-se-iam juntar mil outras não menos belas, e são precisamente aquelas que não cito, porque não têm o mesmo género de beleza. Mas esta basta-me. Que mais é preciso? O génio só não dita tais coisas, e o céu, que as ditou, nunca se manifestará num acento que ultrapasse a linguagem. Da terra, não chega até Deus senão o gemido e a lamentação; do céu, não desce até nós senão a ternura e o perdão: a parábola do Filho Pródigo é a expressão desse perdão numa narrativa que nunca será igualada, porque nunca será ultrapassada no seu princípio.
Poderiam citar-se muitas outras passagens do Evangelho, e esse é um primeiro prazer que deixamos ao leitor.
Mas, depois do relato da vida pública de Cristo, vem o da sua paixão e da sua morte. O Evangelho, tão grande até aí, eleva-se aí ao mais alto acento da história e da poesia — isto é, do que o homem possui de mais verdadeiro e de mais belo ao mesmo tempo. Hesito em tocar-lhe pela palavra, e falarei disso o menos que puder. Quando Jesus Cristo acabou a instrução dos seus apóstolos pelo discurso que se encontra nos capítulos 13, 14, 15, 16 e 17 do Evangelho de São João (o leitor, por amor de Deus, não deixe de o ler); quando Se dirigiu a um jardim situado para além da torrente de Cédron, os seus inimigos vieram a Ele, munidos de soldados da guarda do templo, e Judas, um dos seus discípulos, traiu-O com um beijo. Sabeis o resto, e quase todos o sabem. Ele é preso, julgado, condenado, amarrado, flagelado, coroado de espinhos, carregado com a sua cruz, e morre entre dois malfeitores. Este relato, feito tão simplesmente pelos Evangelistas, atravessou o mundo: o mundo divide-se entre os que nele crêem e os que nele não crêem, e os incrédulos tanto como os fiéis nunca ouviram esta história sem se comoverem. Como é isso possível? Como tal coisa aconteceu? Como é que este homem, morrendo numa cruz entre o céu e a terra, tomou posse da admiração universal, e como é que o relato do seu fim, mais do que o de qualquer outro, encontrou o caminho de todos os corações? Não vejo para isso senão uma razão. É que o homem que morreu na cruz era um justo, e não um justo vulgar, mas um justo que nada deixa a pensar contra ele. Tudo aí é puro; o olhar não encontra sombra alguma. Uma vida sem mancha, uma ciência sem erro, uma caridade sem limites, uma coragem sem fraqueza, o sacrifício inteiro de si mesmo: eis o que aí se vê, e isso basta para explicar esta divina simpatia que a morte de Cristo obteve dos seus contemporâneos e da posteridade. O justo comove sempre, qualquer que seja o destino que Deus lhe reserva, assim como o perverso, mesmo no auge da sua fortuna, deixa atrás de si algo de indefinivelmente triste. Mas um justo inocente que morre pelo último suplício sem o ter merecido alcança o cume do patético, e, se viveu e falou como Cristo, o mundo inteiro não será senão um eco enfraquecido da sua história.
É a sua própria boca que vos dirá o seu pensamento, os seus olhos que vos dirão o seu amor, a sua mão que apertará a vossa para vos encorajar abençoando-vos. Vê-lO-eis nascer no silêncio de uma noite, na palha de um estábulo, e levar-Lhe-eis, juntamente com humildes pastores, as primícias da adoração do género humano. O Oriente, terra antiga de lembranças, enviará visitantes ao seu berço, e, desde este despertar de uma glória destinada a encher o mundo, o sangue inocente correrá para a abafar. Uma terra impura receberá no exílio o menino que purificará tudo e fará do universo uma só pátria. Voltareis com Ele ao tecto dos seus antepassados — já não o palácio de David, de quem é o último filho, mas a obscura casa de um artesão que vive das suas mãos — e ali admirareis trinta anos de silêncio e de paz. Nada perturbará esta longa preparação, até ao dia em que uma voz ressoará no deserto: Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas (1). Jesus Cristo obedecerá a este grito de um profeta; sairá de Nazaré e descerá às margens do Jordão, onde a multidão, atraída pelo homem das solidões, se apertava em torno dele pedindo-lhe o baptismo do arrependimento. Ele mergulhará nele como eles, e, quando Se erguer acima das águas, o céu abrir-se-á sobre a sua cabeça e ouvir-se-á esta voz: Este é o meu Filho amado, em quem pus a minha complacência (2). Reconhecereis o Filho de Deus; segui-lO-eis nos passos dos seus apóstolos; juntar-vos-eis à multidão imensa que O acompanhava pelos campos da Galileia, e ouvireis a palavra de salvação cair dos seus lábios sagrados. Estareis entre os convivas do banquete de Caná e entre os cinco mil homens que foram saciados por cinco pães de cevada no deserto. Vereis correr sobre Lázaro as lágrimas da sua amizade, e vós mesmos chorareis de dor e de alegria no relato da última semana da sua vida. Começa em Jerusalém, com uma palma na mão, entre os Hosanas do triunfo; terminará num patíbulo, entre as aclamações do ódio. Mistérios desconhecidos do homem cumprir-se-ão na última cena da sua última ceia; Pedro chorá-lO-á, Judas traí-lO-á, todos fugirão, e será entre as mãos de João, de Maria e de Madalena que encontrará o último adeus da terra. Subirá ao céu depois de ter dado as suas instruções supremas; o Espírito Santo descerá para completar o edifício da Igreja, e os actos daquela fundação miraculosa ser-vos-ão narrados pela pena de um dos companheiros de São Paulo.
(1) São Mateus, III, 3. — (2) São Mateus, III, 17.
Depois do Evangelho, parece que a Escritura já nada mais nos pode dar. Não é, contudo, inteiramente assim, e nas Epístolas de São Paulo a alma do cristão encontra ainda um alimento e uma alegria. São Paulo não se parece com nada; não tem análogo em nenhuma literatura profana, nem em nenhuma literatura sagrada. Está só, e a uma altitude que desconcerta, desde as primeiras páginas, toda a criatura em posse de si mesma. Outros viram Jesus Cristo nascer num estábulo, falar na Judeia, morrer numa cruz e subir ao céu: Paulo só O viu num raio descido do alto, que o trespassou como a lâmina de uma espada; só Lhe falou no êxtase, só ouviu a sua voz do seio de uma nuvem, e, quando foi arrebatado ao terceiro céu, ele próprio ignorava se era no seu corpo ou fora do seu corpo que gozava a vista do seu Deus. Assim, quando tenta transmitir-nos o que viu, ouviu, saboreou, tocou do Verbo de vida, traz à expressão do seu apostolado algo que é o primeiro e o último acento da fé cristã. David predizia, Isaías profetizava, Jeremias chorava, Daniel calculava a hora da promessa; os Evangelistas narravam, os apóstolos testemunhavam: Paulo, ele, creu, e diz-vos o choque da sua crença com uma força em que nada há de arte, nada de ciência do discurso, mas em que a plenitude do homem transborda por todos os canais da palavra. Não se sabe se se admira a sua dialéctica ou a sua emoção; é ao mesmo tempo mais rigoroso que Aristóteles e mais apaixonado que Platão; faz entimemas que arrancam as entranhas, deduções que fazem chorar, e, quando de repente irrompe com uma palavra que já não ligou a outra, dir-se-ia que o céu se abriu por descuido, e que o relâmpago que dele escapou não pertencia nem à terra nem ao próprio céu, mas à impaciência do génio de Deus procurando abrir caminho num homem.
Paulo tem uma língua própria, uma espécie de grego todo embebido de hebraísmo, construções bruscas, ousadas, breves, algo que pareceria desprezo pela clareza do estilo, porque uma clareza superior inunda o seu pensamento e lhe parece bastar para se fazer ver a si mesma. Indiferente à eloquência como à luminosidade, repele a princípio a alma que vem sentar-se a seus pés; mas, quando se tem a chave da sua linguagem, e quando, à força de o reler, nos elevamos pouco a pouco a entendê-lo, cai-se na embriaguez da admiração. Todos os golpes do seu trovão abalam e cativam; já nada há acima dele, nem mesmo David, o poeta de Jeová, nem mesmo São João, a águia de Deus; se não tem a lira do primeiro nem o bater de asas do segundo, tem debaixo de si o oceano inteiro da verdade e aquela calma das ondas que se calam. David viu Jesus Cristo do alto do monte Sião, São João repousou no seu peito num banquete; quanto a São Paulo, foi a cavalo, o corpo em suor, o olhar em chamas, o coração cheio dos ódios da perseguição, que viu o Salvador do mundo, e que, derrubado por terra sob o esporão da sua graça, lhe disse esta palavra de paz: Senhor, que quereis que eu faça!
Estudado e saboreado São Paulo, meu caro Emanuel, as Escrituras são vossas. Abri-las-eis na primeira página, e lê-las-eis a vosso bel-prazer na ordem em que a tradição da Igreja dispôs os livros. Chegareis assim ao Apocalipse de São João, que é a profecia do Novo Testamento e de todo o futuro da Igreja sobre a terra. Nada vos digo dele. São João, naquela célebre visão, viu cair a Roma idólatra, as monarquias cristãs formarem-se dos despojos do império romano, um poder oposto ao reino de Cristo estabelecer-se no mundo, quedas e erros sucederem-se, e enfim, no fim dos tempos, abrir-se a última e a mais formidável das perseguições, da qual a Igreja triunfará pela segunda vinda de Cristo. Tomada no seu conjunto, esta profecia é de extrema clareza; mas nos seus pormenores, escapa aos esforços que queiram segui-la passo a passo e aplicar as suas cenas aos acontecimentos cumpridos. Este trabalho mais ou menos ingrato só terá êxito nos últimos dias, quando, a destinação da Igreja aproximando-se do seu termo, o olhar dos nossos descendentes remontar de época em época o curso de todos os nossos infortúnios e de todas as nossas virtudes. Até lá, a sombra entravará a luz, e isso não deve ser motivo de pesar para os que vivem como nós entre o passado e o futuro da fé, sob o esplendor dos dois Testamentos.