Cornelius a Lapide

Levítico V


Índice


Sinopse do Capítulo

Neste capítulo e no início do seguinte, são especificados certos casos relativos aos pecados de outrem, para que ninguém pense que apenas os pecados próprios devem ser expiados por sacrifício. Benedito, na sua Bíblia, sustenta que este capítulo trata da expiação do pecado cometido por paixão; o capítulo precedente, porém, da expiação do pecado por ignorância; e o capítulo seguinte, a saber o capítulo 7, da expiação do pecado cometido com pleno conhecimento. Todavia, as palavras da Escritura, nos versículos 3, 4, 15, 17 e 18, discordam, pois delas se conclui que este capítulo trata também da expiação do pecado admitido por esquecimento, erro e ignorância.


Texto da Vulgata: Levítico 5,1-19

1. Se uma alma tiver pecado, e ouviu a voz de alguém que jurava, e é testemunha do que ou viu ou sabe; se não o declarar, levará a sua iniquidade. 2. A alma que tiver tocado qualquer coisa impura, quer morta por uma fera, quer morta por si mesma, ou qualquer outro réptil, e se esqueceu da sua impureza, é ré e pecou; 3. e se tocou em alguma coisa da impureza de um homem, segundo toda a impureza pela qual costuma ser contaminado, e tendo-se esquecido dela depois a reconheceu, ficará sujeita à ofensa. 4. A alma que jurou e proferiu com os seus lábios fazer ou mal ou bem, e confirmou o mesmo com juramento e palavra, e tendo-se esquecido depois compreendeu a sua ofensa, 5. faça penitência pelo pecado, e 6. ofereça dos rebanhos uma ovelha ou uma cabra, e o sacerdote orará por ela e pelo seu pecado; 7. mas se não puder oferecer um animal, ofereça duas rolas ou dois pombinhos ao Senhor, um pelo pecado e o outro em holocausto; 8. e entregá-los-á ao sacerdote, o qual, oferecendo o primeiro pelo pecado, torcerá a cabeça dele para trás, em direcção às asas, de modo que fique presa ao pescoço e não se arranque inteiramente. 9. E aspergirá do seu sangue a parede do altar; e todo o que restar fá-lo-á escorrer na base do mesmo, porque é pelo pecado. 10. E o outro queimá-lo-á em holocausto, como costuma fazer-se; e o sacerdote orará por ele e pelo seu pecado, e ser-lhe-á perdoado. 11. Mas se a sua mão não puder oferecer duas rolas ou dois pombinhos, oferecerá pelo seu pecado a décima parte de um efa de flor de farinha; não porá nela azeite nem colocará sobre ela qualquer incenso, porque é pelo pecado. 12. E entregá-la-á ao sacerdote, o qual, tirando dela um punhado cheio, queimá-lo-á sobre o altar, como memorial daquele que a ofereceu, 13. orando por ele e fazendo expiação; e a parte restante o próprio sacerdote a terá como dádiva. 14. E o Senhor falou a Moisés, dizendo: 15. Se uma alma, transgredindo as cerimónias, por erro, tiver pecado nas coisas que são santificadas ao Senhor, oferecerá pela sua ofensa um carneiro sem mácula dos rebanhos, que possa ser comprado por dois siclos, segundo o peso do Santuário; 16. e restituirá o próprio dano que causou, e acrescentará além disso uma quinta parte, entregando-a ao sacerdote, o qual orará por ela oferecendo o carneiro, e ser-lhe-á perdoado. 17. Se uma alma tiver pecado por ignorância, e tiver feito alguma das coisas proibidas pela lei do Senhor, e sendo ré do pecado reconhecer a sua iniquidade, 18. oferecerá ao sacerdote um carneiro sem mácula dos rebanhos, segundo a medida e estimação do pecado; e ele orará por ela, porque o fez sem saber, e ser-lhe-á perdoado, 19. porque por erro pecou contra o Senhor.


Versículo 1: Se uma alma tiver pecado

1. SE UMA ALMA TIVER PECADO — do modo que se segue. Os casos e leis deste capítulo e do seguinte parecem pertencer a todos, mesmo aos sumos sacerdotes; pois aqui não há distinção de pessoas, como foi feita no capítulo 4.


E ouviu a voz de alguém que jurava

E OUVIU A VOZ DE ALGUÉM QUE JURAVA. — «Que jurava», isto é, como o Caldeu, Vatablo e outros traduzem, de alguém que adjurava, a saber, um juiz. Daí que também algumas Bíblias manuscritas leiam «adjurava»; com efeito, Radulfo apresenta e expõe ambas as leituras, a saber, «jurava» e «adjurava». Também Vilalpando, em Ezequiel capítulo 17, página 3: «que jurava», diz ele, isto é, de um juiz que interrogava mediante juramento prévio, como quem diz: Se alguma testemunha, adjurada por um juiz a declarar verdadeiramente aquilo que viu ou sabe acerca de um assunto em disputa num julgamento: se não o revelar, mas o dissimular ou negar, e disser que nada sabe a respeito, esse homem levará a sua iniquidade.


Segunda interpretação — A voz de um juramento

Em segundo lugar, a voz de alguém que jurava pode ser tomada simples e propriamente. Pois em hebraico é אלה ala, isto é, de um juramento, sobretudo execratório, como quem diz: Se alguém ouviu a voz de alguém que jurava, isto é, de alguém que confirmava algo por juramento, por exemplo prometendo alguma coisa, ou celebrando algum contrato, ou afirmando e estabelecendo outra coisa por juramento (pois os hebreus costumavam confirmar os seus contratos e promessas por juramento), e foi citado como testemunha em tribunal para declarar aquilo que viu ou soube a respeito do assunto: se esse, requerido pelo juiz para testemunhar a verdade, não a revelar, levará a sua iniquidade. Assim ensinam Santo Agostinho, Questão I, Procópio, Hesíquio, Orígenes, Radulfo e Abulense. Alguns Rabinos explicam-no de outro modo, como se a Escritura falasse aqui daquele que ouve alguém perjurando, amaldiçoando, blasfemando e abusando do nome de Deus, e não o denuncia ao magistrado para que seja punido: pois tal pessoa torna-se ré e deve, por este seu silêncio, como se fosse uma transgressão, oferecer a oblação aqui prescrita.


Nota sobre a cegueira dos judeus a respeito dos juramentos

Note-se aqui a cegueira e perversidade dos judeus, que nenhum escrúpulo de consciência fazem a respeito de juramentos e perjúrios, a menos que jurem com a mão posta sobre o livro da lei; mas se jurarem por outro rito, ousadamente jurarão falso. Por isso agem imprudentemente e com grande injúria para os cristãos os magistrados que admitem judeus a prestar juramento contra cristãos em processos judiciais. Quando o povo de Nuremberga e outras repúblicas outrora compreenderam esta perfídia, não admitiram os judeus a nenhum juramento a não ser que jurassem com a mão posta sobre o livro da lei da sua Sinagoga. Acrescente-se que, no dia da expiação, são absolvidos pelos seus Rabinos de todos os votos e juramentos, se os fizeram com intenção maliciosa. Por fim, o judeu considera-se lícito causar dano a um cristão por qualquer meio que possa. Donde um certo grande Rabino deles escreve: «O melhor dentre os gentios merece ter a cabeça esmagada como a de uma serpente.»


Levará a sua iniquidade

LEVARÁ A SUA INIQUIDADE. — Iniquidade é aqui usada metonimicamente, pela punição da iniquidade, como quem diz: Tal pessoa será punida por Deus, ainda que o crime permaneça oculto aos homens para sempre; tal pessoa levará a punição da sua iniquidade, a qual todavia poderá remover pela penitência e pelo sacrifício prescrito no versículo 6. Pois a sanção dada no versículo 6 deve ser referida a todos os casos precedentes: com efeito, por este sacrifício dava-se satisfação a Deus; contudo, se um próximo tivesse sido lesado, todo o dano ainda tinha de ser reparado.


Versículo 2: A alma que tiver tocado qualquer coisa impura

2. A ALMA QUE TIVER TOCADO QUALQUER COISA IMPURA, etc., OU QUALQUER RÉPTIL QUE SEJA (pois todos os répteis eram impuros segundo a lei, Levítico 11,42), E SE ESQUECEU DA SUA IMPUREZA (e consequentemente negligenciou removê-la pelo sacrifício estabelecido pela lei), É RÉ. — Em hebraico: é impura ou contaminada, porque tocou numa coisa impura, e por isso é ré, porque agiu contra a lei, Levítico 11,43, que proíbe tocar o que é impuro.


E pecou

E PECOU — porque não expiou esta impureza pelo sacrifício ou purificação prescritos pela lei. Assim ensina Abulense.


Teodocião e Áquila

Teodocião e Áquila traduzem: a alma que se contaminou por uma palavra impura, isto é, por uma coisa impura ou imunda, é ré. Pois «palavra» é frequentemente tomada metonimicamente por «coisa».


Interpretação tropológica — Procópio

Tropologicamente, Procópio diz: Aquele que segue qualquer palavra que não seja a de Deus (pois só a Sua é pura, todas as demais são impuras), é réu e pecou.


Versículo 3: Se tocou na impureza de um homem

3. E SE TOCOU EM ALGUMA COISA DA IMPUREZA DE UM HOMEM, SEGUNDO TODA A IMPUREZA PELA QUAL COSTUMA SER CONTAMINADO (isto é, de todas aquelas coisas pelas quais os homens costumavam ser contaminados segundo a lei de Moisés, assim como, no versículo 5, aquele que tocava num cadáver ficava legalmente contaminado), FICARÁ SUJEITA À OFENSA. — Em hebraico: pecou, e por isso é ré e sujeita tanto à punição como à culpa, e consequentemente ficará obrigada ao sacrifício prescrito no versículo 6, para se expiar.


Versículo 4: A alma que jurou

4. A ALMA QUE JUROU, etc., DE MODO A FAZER ALGO MAU. — «Fazer mal» para os hebreus significa afligir. Daí que por «fazer mal» entendam aqui jejuar. Assim também São Gregório, Caetano, Vatablo e outros; pois o jejum é uma aflição da carne. Mas como «fazer mal» se opõe aqui a «fazer bem», é melhor referir estas palavras não ao próprio que jura, mas a um terceiro, como quem diz: A pessoa que jurou afligir alguém — entenda-se em sentido justo, como quando os pais juram que castigarão os filhos; pois Deus fala aqui do mal de pena, não de culpa: pois o mal de culpa não é matéria de juramento, o qual todavia é aqui requerido, como é claro pelo hebraico, que assim reza: A respeito de tudo o que um homem possa dizer em juramento, ou proferir precipitadamente; pois NUI bata significa proferir precipitadamente, ou falar temerária e inconsideradamente.


Tendo-se esquecido, depois reconheceu a sua ofensa

E TENDO-SE ESQUECIDO (de modo que não cumpriu o juramento), DEPOIS RECONHECEU A SUA OFENSA — de ter esquecido e negligenciado o seu juramento. Em hebraico lê-se: quando reconheceu que pecou numa destas matérias. Donde se conclui que o sacrifício que se segue deve ser referido a todos os casos precedentes; e Santo Agostinho ensina-o na Questão 1.


Versículo 5: Faça penitência pelo seu pecado

5. FAÇA PENITÊNCIA PELO SEU PECADO — isto é, que o reconheça, se doa e se arrependa dele; pois de outro modo o sacrifício que oferece de pouco lhe aproveitará, e para que lhe aproveite, é necessário que proceda da contrição. Daí que se entenda o mesmo em todos os demais sacrifícios, ainda que não se exprima. O hebraico e o caldeu dizem: Confesse o pecado no qual pecou. Daí relatarem os hebreus que aqui se requeria uma confissão específica do pecado, a saber, que o oferente, com as mãos entre os chifres da vítima, dissesse: «Suplico-Vos, Senhor, pequei, agi com iniquidade, transgredi, assim e assim fiz, eis que me arrependo e me envergonho dos meus actos, nunca mais voltarei a tal coisa.» E relatam que os sacrifícios de nada valiam e não expiavam os pecados se não os tivesse acompanhado tescuba veiddui, isto é, a penitência e esta confissão, segundo o que se prescreve em Números, capítulo 5, versículo 7: «Confessarão o seu pecado que cometeram.» Os hebreus ainda fazem esta confissão específica dos pecados no dia da expiação, e em lugar de satisfação infligem-se golpes a si mesmos, como ouvi da boca deles próprios. Veja-se, pois, quão particularizada era a confissão dos judeus, enquanto os hereges entre os cristãos a querem meramente genérica.

O rito da confissão particularizada entre os judeus.


Versículos 6-7: Ofereça uma ovelha ou uma cabra

6 e 7. OFEREÇA DOS REBANHOS UMA OVELHA OU UMA CABRA, etc.; MAS SE NÃO PUDER OFERECER UM ANIMAL (uma cabeça de gado; em hebraico diz-se: se a sua mão não puder alcançar a suficiência de uma ovelha, isto é, se é tão pobre que não dispõe de uma ovelha), ofereça duas rolas, ou DOIS POMBINHOS AO SENHOR: UM PELO PECADO, O OUTRO EM HOLOCAUSTO.


Nota sobre a ordem da oblação

Nota: Primeiro devia oferecer-se uma rola pelo pecado, depois a outra em holocausto, porque o louvor de Deus não é precioso na boca de um pecador. A carne da rola sacrificada pelo pecado ia inteiramente para o sacerdote, nada para Deus, como se fazia nos outros sacrifícios pelo pecado, conforme é claro de Levítico 6,26. Assim ensina Abulense.


Interpretação tropológica — Modos de penitência

Tropologicamente, São Gregório, Hesíquio e Radulfo entendem pela ovelha, pela rola e pelo pombo os diversos modos de penitência. «Se não podeis oferecer um animal,» dizem eles, «isto é, fazer penitência na aflição da carne, oferecei uma rola, isto é, contrição e gemido, porque não podeis lavar o pecado com digna satisfação; oferecei dois pombinhos, isto é, consagrai a vossa mente à contemplação e à conversação celeste, e entregai-vos plenissimamente a Deus; torcei a cabeça para trás de modo que fique presa ao pescoço, porque aquele que viveu uma vida de luxo, se ao aproximar-se a morte e na velhice fatigada compreende a vaidade dos seus empreendimentos, se agora sabe chorar por ter perdido a sua vida, separe a cabeça do corpo, isto é, afaste a intenção da mente de procurar os prazeres da carne; contudo, a própria cabeça não deve ser inteiramente arrancada, porque o cuidado que se nega aos desejos da carne é devido ao sustento das necessidades,» diz Radulfo.

Outra interpretação alegórica de São Gregório.


São Gregório sobre os votos e a penitência

São Gregório aplica estas palavras de modo algo diferente, no Livro XXXII dos Morais, capítulo 2: «Proferir um juramento,» diz ele, «é obrigarmo-nos pelo voto do serviço divino; e quando prometemos boas obras, comprometemo-nos a fazer bem; mas quando fazemos voto de abstinência e crucifixão da nossa carne, juramos fazer-nos mal a nós mesmos por ora; mas porque ninguém, por mais devoto que seja, deixa de pecar no meio dos seus próprios votos piedosos, ofereça pelo seu pecado uma cordeira, isto é, a inocência da vida activa, ou uma cabra que se alimenta nas rochas, isto é, cinja-se para o pasto da contemplação. Se não puder fazer estas coisas, ofereça duas rolas ou dois pombinhos, isto é, um duplo gemido de penitência, porque tanto deixou de fazer o bem como praticou o mal.»


Versículo 11: Uma décima parte de um efa de flor de farinha

11. MAS SE A SUA MÃO NÃO PUDER OFERECER ROLAS, etc., OFERECERÁ PELO SEU PECADO A DÉCIMA PARTE DE UM EFA DE FLOR DE FARINHA. — Um décimo de efa é um gomer, que era a medida do alimento diário e do maná, como disse em Êxodo capítulo 16, último versículo. Todas estas coisas pertencem a todos os casos precedentes neste capítulo, como disse acima.


Interpretação alegórica — Cristo como o décimo de um efa

Alegoricamente, Cristo é o décimo de um efa, ou de três medidas, porque Cristo tem em Si a plenitude da Santíssima Trindade, mas como décimo, porque a Sua humanidade é muito menor e inferior à Sua divindade. Outrossim, como décimo, porque Cristo cumpriu perfeitissimamente o Decálogo, diz Hesíquio.

Cristo é o décimo de um efa.


Interpretação tropológica — Confissão dos pecados

Tropologicamente, Radulfo entende pelo décimo de um efa uma confissão completa dos pecados; pois dez é um número pleno e perfeito.


Não porá nela azeite

NÃO PORÁ NELA AZEITE — o qual, por costume, segundo a lei de Levítico 2,1, costuma acrescentar-se à mincha, isto é, ao sacrifício de flor de farinha. O azeite é, portanto, proibido aqui no sacrifício pelo pecado, e a primeira causa desta ordenação, como das demais cerimónias, foi a vontade e escolha de Deus. A segunda, causa mística, foi significar que o pecador está privado de alegria e de luz; pois o azeite é símbolo de alegria e de luz. Assim ensinam Teodoreto, Procópio e Cirilo, Livro XV de Sobre a Adoração em Espírito; pois como diz São Cipriano, no seu Sermão sobre os Apóstatas: «Os pecados são para os caídos o que o granizo é para as searas, o que um astro tempestuoso é para as árvores, o que uma devastação pestilenta é para os rebanhos, o que uma violenta tempestade é para os navios.» E São Marcial, na sua carta aos bordaleses: «Os pecados,» diz ele, «são espinhos que, por muitas amarguras, invejas e enganos, não deixam que a alegria e o azeite do Espírito Santo reinem em vós.»

A vítima pelo pecado carece de azeite, isto é, de luz e alegria.


Outra interpretação sobre a ausência de azeite

Hesíquio e Radulfo oferecem outra interpretação: «O pecador,» diz ele, «não deve acariciar-se com azeite,» isto é, não deve presumir do perdão e da indulgência pelo seu pecado, mas deve angustiar-se e temer que talvez não o obtenha.


Nem porá sobre ela qualquer incenso

NEM PORÁ SOBRE ELA QUALQUER INCENSO, PORQUE É PELO PECADO. — O incenso é aqui proibido nas vítimas pelo pecado, para que por isto se signifique que o pecado não cheira suavemente como o incenso, mas cheira de modo péssimo, e é abominável diante de Deus. Assim ensinam Cirilo, Livro XV de Sobre a Adoração, Procópio e Teodoreto. Em segundo lugar, falta aqui o incenso, isto é, a oração, porque, como diz Radulfo, «o pecador não deve pedir perdão com rosto desavergonhado, pois não oferece digna satisfação; peça, como se não pedisse; espere, mas como se desesperasse, enquanto confessa ser indigno de perdão e todavia crê que só pela misericórdia de Deus é possível salvar-se. Daí que a Igreja nos ensine a orar a Deus para que perdoe o que a consciência receia e acrescente o que a oração não presume pedir.» E Hesíquio: «O incenso,» diz ele, «aqui não se acrescenta porque o pecador não sabe se a sua oração é de bom odor, pois frequentemente transgrediu.» Donde Joel, capítulo 2: «Convertei-vos,» diz ele, «ao Senhor, porque é benigno; quem sabe se se converterá e perdoará, e deixará após si uma bênção?»

Carece também de incenso, isto é, de bom odor.


Versículo 12: Como memorial daquele que ofereceu

12. COMO MEMORIAL DAQUELE QUE OFERECEU. — Isto é, para que Deus se recorde daquele que ofereceu. Veja-se o comentário ao capítulo 2, versículo 2.


Versículo 13: Orando e expiando

13. ORANDO E EXPIANDO — orando para que lhe seja perdoado, como é claro pelo hebraico.


A parte restante será do sacerdote

Mas a parte restante (da flor de farinha oferecida pelo pecado) o sacerdote que oferece TERÁ COMO DÁDIVA. — Em hebraico: como dádiva, pela qual Deus quer recompensá-lo pelo seu trabalho e ministério do tabernáculo; pois mincha em hebraico significa por vezes qualquer oblação e qualquer dádiva. A Septuaginta traduz: o restante pertencerá ao sacerdote, como o sacrifício de flor de farinha, que por lei lhe deve caber, a respeito do qual veja-se o capítulo 6, versículo 16.


Versículo 15: Transgredindo as cerimónias por erro

15. SE UMA ALMA, TRANSGREDINDO AS CERIMÓNIAS, POR ERRO. — Pois se as tivesse transgredido conscientemente, não era expiada pelo sacrifício de um carneiro aqui prescrito, mas era punida com a morte, como é claro de Números 15,3. Daí que no versículo 18 aqui se diga: «Orará por ele, porque o fez sem saber.» De modo semelhante, esta era a sanção entre os gentios: «Quem quer que tenha roubado ou arrebatado algo sagrado, ou algo confiado a um lugar sagrado, seja tratado como parricida,» conforme refere Cícero no Livro II de Sobre as Leis.


Nas coisas santificadas ao Senhor

NAS COISAS QUE SÃO SANTIFICADAS AO SENHOR — por exemplo, se um leigo come da carne sacrificada a Deus, como se diz no capítulo 22, versículo 14.


Um carneiro que possa ser comprado por dois siclos

OFERECERÁ PELA SUA OFENSA UM CARNEIRO QUE POSSA SER COMPRADO POR DOIS SICLOS. — Em hebraico: segundo a avaliação, ou o preço em prata de siclos, a saber, pelo menos dois. Assim ensina Vatablo. Acrescente-se que é verosímil que no hebraico שקל se deva ler no plural שקלים scekalim, isto é, «de siclos», mas no dual scekalaim, isto é, «de dois siclos». Um siclo continha quatro reais espanhóis: dois siclos de prata equivaliam, portanto, a oito reais espanhóis, isto é, dois florins brabantinos. Radulfo afirma que a Septuaginta traduziu «um carneiro do preço de 50 siclos», e isto por razão mística, diz ele, a saber, para significar que a confissão de fé que o siclo significa, pela qual o carneiro, isto é, Cristo, é adquirido, é dada aos homens pela quinquagésima, isto é, pelo Espírito Santo derramado no Pentecostes. Porém as edições grega, régia e romana carecem agora de qualquer número, e é certo que o 50 se introduziu por erro: pois o hebraico, o caldeu e o latim nada de tal contêm; e está bem estabelecido que com 50 siclos se comprava não um carneiro, mas um boi. Pois um carneiro podia ser comprado por dois siclos, como se diz neste versículo.


Segundo o peso do santuário

SEGUNDO O PESO DO SANTUÁRIO — isto é, de peso justo, de modo a que seja igual em peso ao siclo que se guarda no santuário como padrão do peso mais exacto, como disse em Êxodo 30,24, e como é claro de Levítico, último capítulo, versículo 25, onde se diz: «Toda avaliação será pesada pelo siclo do santuário.»


Versículo 16: Restituição com uma quinta parte acrescentada

16. E RESTITUIRÁ TODO O DANO QUE CAUSOU, E ACRESCENTARÁ UMA QUINTA PARTE ALÉM DISSO. — Para que esta quinta parte acrescentada sirva de compensação pela injúria que, além do dano, infligiu ao Senhor e às Suas coisas sagradas. Donde é claro que se alguém tivesse por erro tomado coisas santificadas e oferecidas a Deus, como a carne ou a gordura que cabia a Deus sozinho no sacrifício, era obrigado, primeiro, a oferecer um carneiro em sacrifício; segundo, a restituir a coisa usurpada e, além disso, um quinto, de modo que, por exemplo, se tivesse usurpado cinco, restituiria seis: pois Deus ocupa aqui o lugar de uma pessoa privada; com efeito, estas coisas especialmente santificadas a Deus eram, por assim dizer, propriedade de uma pessoa privada, e eram, por assim dizer, o pecúlio pessoal de Deus. Donde a restituição das mesmas Lhe era devida. Isto é, pois, aqui prescrito, com uma quinta parte adicionalmente imposta em lugar de multa.

Deus exige restituição.


Nota sobre a restituição em dinheiro

Nota: Esta restituição devia ser feita em dinheiro, que cabia aos sacerdotes (pois eles fazem as vezes de Deus na terra), e isto é insinuado aqui; pois de outro modo, aqueles que por erro tivessem comido parte de um holocausto teriam de restituir um animal inteiro para ser oferecido a Deus em holocausto; com efeito, uma parte de um animal não podia ser oferecida em holocausto, mas o animal inteiro: portanto, para que não fossem forçados a restituir o animal inteiro, pagavam o preço da parte usurpada ao sacerdote. Assim ensina Abulense. Em grego, em lugar de «a quinta parte», há epipempton, «que nós,» diz Orígenes, «podemos traduzir como "sobre os quintos", a menos que se diga que esta é uma palavra para um certo número especial entre eles, pelo qual se indica que por cinco se devem dar outros cinco e um por cima; de modo que, por exemplo, se entenda que aquele que roubou ou tomou por necessidade cinco moedas das coisas sagradas deve restituir aqueles mesmos cinco e além disso outros cinco, com mais um acrescentado por cima.» Todavia, é melhor explicar τὸ ἐπίπεμπτον segundo o hebraico, o caldeu e o latim, que dizem «uma quinta parte»; pois Moisés fala não da pena do furto, acerca do qual veja-se Êxodo capítulo 22, versículo 1, mas do mau uso das coisas santificadas.


Versículo 17: Se uma alma tiver pecado por ignorância

17. SE UMA ALMA TIVER PECADO POR IGNORÂNCIA, E TIVER FEITO ALGUMA DAS COISAS PROIBIDAS PELA LEI DO SENHOR — omitindo nas matérias sagradas alguma cerimónia não prejudicial a ninguém; pois que este caso se trata aqui é claro pelo que se segue: «Pecou contra o Senhor,» e pelo facto de o pecador ser mandado oferecer um carneiro de maior ou menor preço segundo a medida do pecado. Assim ensina Caetano. Esta lei distingue-se, pois, da precedente, versículo 15, em que aquela trata das coisas santificadas ou oferecidas a Deus, enquanto esta trata dos próprios ritos e cerimónias sagradas. Distingue-se também daquela do capítulo 4, versículo 27, porque aquela é geral e trata de quaisquer pecados cometidos contra os preceitos morais de Deus, enquanto esta é específica.


Versículo 18: Orará por ele, porque o fez sem saber

ORARÁ POR ELE, PORQUE O FEZ SEM SABER — como quem diz: Orará por ele, dizendo: Perdoai, Senhor, a este homem que transgrediu na observância das cerimónias por Vós prescritas, porque o fez sem saber.


Segundo a medida e estimação do pecado

18. SEGUNDO A MEDIDA E ESTIMAÇÃO DO PECADO — como quem diz: Por um pecado maior oferecerá um carneiro melhor e mais valioso, mas por um pecado menor, um mais pequeno e de preço inferior. Abulense explica-o de outro modo, como quem diz: O valor do carneiro que se oferece será tão grande quanto a estimação ou medida atribuída ao carneiro pelo pecado, isto é, de dois siclos. Porém Abulense não adverte que onde se estabelece o preço de dois siclos, não se acrescenta «segundo a medida e estimação do pecado», porque o preço já estava fixado pela lei; aqui, contudo, onde se diz «segundo a medida e estimação do pecado», não se estabelece nem fixa o preço de dois siclos, mas deixa-se ao arbítrio e estimação do sacerdote, para que ele imponha um carneiro de maior preço por um pecado maior, e de menor preço por um pecado menor. Assim ensina Ribera. Daí que em hebraico se leia: segundo a tua estimação, a saber, ó Moisés, e consequentemente a tua, ó Aarão e sacerdote; pois estas matérias sagradas pertenciam a Moisés enquanto ele era o chefe das coisas sagradas e sacerdote. Daí que nestas matérias Aarão e os sacerdotes lhe sucederam.